POESIA

O Poeta e Seus Inversos

O Poeta e Seus Inversos
Publicado em 10/05/2025 às 15:54

( Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE )

Na penumbra da aurora onde os pensamentos se encrespam,
Ergue-se o Poeta — alquimista de abismos e constelações.
Entrelaça com penas o silêncio do caos,
E faz da lágrima um santuário de metáforas.

Seu verbo não nasce do lume raso das horas,
Mas da caverna onde moram os ecos do não-dito.
É ali, no ventre oculto da linguagem,
Que tece seus inversos — espelhos de carne invertida.

O Poeta é rio e deserto,
É antítese encarnada em cada estrofe.
Por vezes, canta com voz de trovão os lírios da agonia,
Noutras, sussurra ao tempo a nudez do efêmero.

É ele quem sopra vida aos desvalidos signos,
Transforma dor em dança, e angústia em aurora.
Mas carrega nos ombros a sina dos que enxergam demais —
O peso das pétalas mortas em jardins não germinados.

Seus inversos, sombras siamesas da inspiração,
São os que zombam do verbo, corroem a rima,
São silêncios travestidos de discurso,
Cicatrizes que fingem ser poesia.

Enquanto o mundo vê palavras,
O Poeta vê labirintos —
Cada verso, um minotauro,
Cada estrofe, uma espada de bruma.

Não escreve para ser lido,
Mas para existir, ainda que em ruínas.
Pois em cada poema há um sacrário oculto,
E em cada inverso, um espelho de vidro partido.

Assim caminha o Poeta:
Entre o néctar da loucura e o fel da lucidez,
Erguendo catedrais de sentido sobre os escombros do real.
— E quando cala, é que mais grita.

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