POESIA
Ingratidão
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
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És tu, Ingratidão, quimera dissimulada,
que dança na penumbra das consciências dormidas,
feita de névoas e silêncios,
filha bastarda da conveniência e do esquecimento.
Serpente astuta de escamas polidas,
enroscas-te no peito que outrora te abrigou,
destilas o fel da indiferença
em cálices de porcelana emocional.
Foste hóspede em meus dias diáfanos,
devorando manjares de afeto e candura,
mas partiste em surdina,
deixando apenas o eco da tua ausência apunhalante.
Tens a verve dos abutres,
que só pousam sobre a ossatura daquilo que lhes serviu,
deglutindo memórias com a sofreguidão de um niilista.
Finges não recordar os alicerces que te ergueram,
e nas sendas da altivez postiça,
cospes sobre as mãos que te entrelaçaram no abismo.
És a orquídea de beleza espúria,
que floresce no jardim do egoísmo,
ornamentando a deslealdade com pétalas de hipocrisia.
No tribunal das emoções,
serias ré sem defesa,
acusada de dilacerar vínculos com bisturis invisíveis.
Mas que saibas, ó espectro de ingratidão,
que os que por ti foram coroados de espinhos,
erguerão castelos sobre a dor,
e tu…
tu fenecerás no esquecimento —
teu único e merecido epitáfio.




