CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 28 de dezembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 28 de dezembro amanheceu com cheiro de luz apagada e esperança em meia-fase. O calendário bocejou, espreguiçou-se, e avisou: “o ano está de saída, favor não esquecer seus sonhos no balcão”. A cidade respirou fundo — e o mundo, como sempre, respondeu em metáforas.
Na Orla da Atalaia, a Vila do Natal Iluminado fechou as cortinas como um teatro cansado, mas orgulhoso do espetáculo. As luzes piscaram em despedida, como estrelas de aluguel devolvidas ao céu. Foram 24 dias de brilho, gargalhadas, algodão-doce grudado na memória e selfies que tentarão convencer o futuro de que fomos felizes. O Natal, esse ator exagerado, tirou a maquiagem, dobrou o figurino e saiu de cena prometendo voltar — sempre volta — enquanto a economia local agradeceu de joelhos e aplausos. O comércio sorriu, o turismo engordou, e a cidade, por alguns dias, acreditou que a luz também paga boleto.
Mas enquanto uma parte da cidade apagava as luzes decorativas, outra acendia o alerta vermelho. O Sindicato dos Jornalistas de Sergipe foi invadido pela terceira vez em quinze dias. Três golpes na mesma porta — insistência criminosa que beira a obsessão. Parece metáfora pronta: arrombam o espaço de quem escreve, mas não conseguem arrombar a palavra. Tentam calar paredes, mas as ideias escapam pelos tijolos, escorrem pelas teclas, vazam em manchetes invisíveis. A sede foi violada, mas o jornalismo segue de pé, cambaleante talvez, porém teimoso como verdade mal resolvida. Há crimes que roubam objetos; outros tentam roubar o direito de contar a história. Esses últimos são os mais perigosos.
E enquanto as portas são arrombadas, os corações — curiosamente — se abrem. Pesquisa diz que 69% dos brasileiros acreditam que 2026 será melhor. O otimismo cresceu como planta em rachadura de concreto. Mulheres e nordestinos puxam essa fila da esperança, como quem diz: “a gente já aprendeu a sorrir com pouco, imagina com melhora”. O brasileiro, esse atleta olímpico da sobrevivência, faz alongamento emocional todo dia. Cai, levanta, ri do próprio tombo e ainda aposta no amanhã. É fé sem manual, esperança sem garantia, crédito sem SPC.
E o mundo lá fora também resolveu brincar de reescrever mapas. Somalilândia, esse território que se declarou independente em 1991, resolveu existir oficialmente para Israel depois de mais de três décadas de invisibilidade internacional. Um país que sempre esteve lá, mas que o mundo fingia não ver — como certas dores, certos povos, certas verdades. Um oásis político no meio do deserto diplomático, um nome escrito a lápis na geopolítica global, agora começando a ganhar tinta. O reconhecimento chegou atrasado, como carta que o correio esqueceu na gaveta, mas chegou. E quando chega, muda o silêncio de lugar.
O dia 28 termina assim: com luzes que se apagam, portas que são violadas, corações que se enchem de esperança e países que lutam para existir no dicionário do mundo. O planeta gira com soluços, o Brasil sonha acordado, Sergipe resiste escrevendo, e o Natal — mesmo desmontado — deixa farelos de encanto pelo chão.
O ano velho vai se despedindo mancando, mas ainda capaz de provocar reflexão. E nós seguimos, equilibrando riso e indignação, esperança e ironia, porque viver no Brasil é isso: um exercício diário de poesia em meio ao caos — com pausa, com ritmo, com emoção… e com a teimosia luminosa de quem ainda acredita que o próximo parágrafo pode ser melhor.




