CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de dezembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 25 amanheceu em Japaratuba, celeiro da cultura sergipana, com cheiro de incenso, suor de povo e memória em marcha. Mais de um século de tradição não cabe em museu: escapa pelas ruas, tropeça nos paralelepípedos, dança nos olhos. A busca do mastro e o hasteamento da bandeira de São Benedito são o povo em movimento — fé de pés descalços, história de braços erguidos. A cidade não envelhece; ela se renova no gesto repetido, como quem reza com o corpo inteiro. O tempo, ali, aprende a respeitar o calendário do sagrado.
Enquanto isso, o verão afia os dentes no litoral. Os bombeiros falam com a voz da prudência, mas o mar — esse poeta traiçoeiro — responde com metáforas salgadas. O sol seduz, a onda cochicha promessas, e a correnteza, sorrateira, ensina que beleza também cobra pedágio. Entre boias e apitos, a vida pede cuidado; a alegria, freio; e o descanso, responsabilidade.
Nos hospitais, o noticiário veste jaleco. “Cirurgia de Bolsonaro finalizada com sucesso”, anuncia o boletim, como quem bate o sino da normalidade. Três horas e meia de bisturi, hérnia corrigida, quarto garantido — e a política, essa paciente crônica, segue em observação permanente. O corpo costurado descansa; o país, não. Há sempre um ponto que insiste em inflamar, um fio solto na narrativa nacional.
Do outro lado do mapa, a Califórnia vira aquarela borrada. A chuva cai sem pedir licença, a encosta cede, e a casa aprende a flutuar sem vocação. Sete milhões de pessoas vivem na gramática do risco, onde o verbo “ficar” é provisório e o substantivo “lar” precisa de rodapé. A natureza, quando fala alto, dispensa legenda: lembra que progresso sem cuidado é castelo de areia.
Na Venezuela, as grades rangem como portas de esperança tardia. Sessenta opositores voltam a respirar ar menos vigiado — alívio que chega com vírgulas, não com ponto final. Depois de eleições em nuvem de suspeitas, a liberdade sai em conta-gotas, como se fosse favor. O poder, ali, ensaia magnanimidade; a história, cética, pede provas.
E assim passou o Natal do mundo: fé em procissão, mar em alerta, bisturi em manchete, chuva em descontrole, grades em negociação. O dia 25 não foi só peru e laço vermelho; foi espelho. Mostrou que tradição é resistência, cuidado é urgência, saúde é notícia, clima é política e liberdade não é presente — é conquista. No fim, Japaratuba segue cantando, o mar segue chamando, a Terra segue cobrando, e nós seguimos aprendendo, aos tropeços, que viver exige mais que festa: exige consciência, coragem e um pouco de silêncio para ouvir o que o tempo insiste em dizer.




