CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de Setembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de Setembro de 2025
Publicado em 16/09/2025 às 2:05

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

Segunda-feira, esse senhor carrancudo que chega de terno amarrotado e relógio atrasado, abriu as cortinas do palco das notícias com um sorriso amarelo e um bafo de café requentado. O povo, ainda com olheiras de domingo, foi acordado com a trombeta da realidade: a adutora do São Francisco, depois de brincar de esconde-esconde com a dignidade dos sergipanos, finalmente foi consertada.

Eis que a água, essa diva caprichosa, volta a escorrer pelas torneiras como cantora que faz suspense antes de soltar a nota mais alta. Durante dias, ela se escondeu nos bastidores, deixando panelas a seco, chuveiros em greve e vizinhos transformados em beduínos de balde na mão. A Deso anunciou o milagre como quem solta um trailer de filme: “o abastecimento vai voltar… gradativamente.” Gradativamente, em linguagem popular, é o mesmo que dizer: “Sente-se, respire fundo e espere a eternidade servir um copo d’água.”

Enquanto isso, lá nos corredores empoeirados do STF, decidiram que faculdades municipais podem sim estender seus tentáculos para além de suas cidades. É como se o ensino superior fosse uma pizzaria de franquia: Taubaté e Goiás podem agora entregar diplomas via delivery. Não importa se o aluno vai aprender geografia estudando pelo Google Maps — o importante é que a matrícula chega quentinha, com borda recheada de burocracia.

Já no tribunal das ironias nacionais, Moraes bateu o martelo para que Débora Rodrigues continue em prisão domiciliar. A moça, que um dia achou que batom era tinta de revolução, agora pinta a rotina entre quatro paredes, talvez desenhando corações de batom no espelho, refletindo sobre como a fúria de um gesto pode virar sentença de 14 anos. A estátua que ela coloriu com fúria permanece lá, silenciosa, rindo de sua criadora, como se fosse um espelho de bronze da própria vaidade humana.

No cenário internacional, Israel resolveu brincar de rolo compressor em Gaza. “Ofensiva terrestre”, dizem os jornais, como se fosse apenas uma partida de War no tabuleiro da vida. Mas o cheiro que chega até nós é de pólvora e de lágrimas. O Hamas é o rótulo, o território é o prêmio, e os civis são os cacos de vidro no chão de um bar quebrado. Gaza é um coração apertado entre tanques, onde cada rua vira epitáfio antes mesmo da lápide.

E assim a segunda-feira se fecha: com água voltando a pingar nas torneiras de Sergipe, com diplomas viajando como encomenda expressa, com batons transformados em correntes de prisão e com tanques atravessando vidas em Gaza. O mundo é um palco onde cada ato mistura comédia, tragédia e sátira, mas a plateia nunca tem direito de aplaudir de pé — no máximo, chorar sentada.

Talvez o que nos reste seja beber, com a sede acumulada de dias, o primeiro copo d’água que chegar. E nesse gole simples, lembrar que a vida, tão frágil quanto uma adutora velha, pode se romper a qualquer instante.


O cano quebra, a água falta, a esperança seca. Mas quando volta, ela nos lembra: somos todos desertos esperando pela chuva.