CRÔNICA

Quando o Tempo se Desfaz na Memória

Quando o Tempo se Desfaz na Memória
Publicado em 25/05/2025 às 16:22


Por Antônio Glauber Santana Ferreira

O tempo, esse velho senhor de passos apressados, vive convencido de que tudo lhe pertence. Corre, rouba primaveras, leva embora verões dourados, apaga rugas da infância e planta outras, bem fundas, no rosto da vida. Mas há um detalhe que ele ignora: a memória não lhe obedece.

A memória é teimosa. Insiste em bordar eternidades no tecido do que foi. Enquanto o tempo tenta apagar, ela escreve à mão, com tinta indelével, os capítulos mais bonitos da nossa história.

Para uma criança, tudo parece passageiro: um cheiro é só um cheiro, um colo é só um descanso, uma risada é só som. Mal sabem elas que estão, sem saber, esculpindo eternidades. Porque um dia, aquele cheiro de café da avó, aquele colo de pai, aquela gargalhada com os irmãos… tudo isso se tornará abrigo quando as tempestades da vida vierem.

A vida anda, corre, escapa. Filhos crescem, amores partem, rostos somem no retrovisor do tempo. Mas dentro da gente, há um relicário secreto onde ninguém envelhece. Ali, somos eternamente jovens, eternamente amados, eternamente de mãos dadas com quem a vida, lá fora, já levou.

A saudade é isso: o grito silencioso da memória tentando vencer o tempo. E vence. Porque ela faz brotar lágrimas no meio do riso, faz apertar o peito quando toca aquela velha canção, quando passamos por aquela rua, quando sentimos aquele perfume que já não deveria mais estar aqui… mas está. Porque memória não tem relógio, nem calendário.

E é assim que reencontramos amigos de infância e, como mágica, os anos se desmancham. Cabelos brancos, rugas, dores nos joelhos… tudo some. O que resta são os meninos e meninas que ainda somos, rindo das mesmas piadas, relembrando os mesmos tombos, os mesmos sonhos.

Perto dos nossos pais, somos sempre os filhos que voltam da escola, que brigaram pelo último pedaço de bolo, que correram descalços pela casa. E eles, mesmo de olhos mais gastos e passos mais lentos, continuam nos olhando com aquele mesmo olhar cheio de proteção, como quem cuida do que nunca deixou de ser pequeno.

O amor, esse danado, não aceita despedidas. O tempo tenta fechar feridas, mas o amor… Ah, o amor é mestre em arrombar portas que julgávamos trancadas. Basta um cheiro, uma música, uma fotografia — e pronto: lá estamos nós, de volta. No exato instante em que fomos felizes. Ou que doeu demais.

Somos feitos disso: de pedaços de quem amamos, de risos que ecoam dentro da gente, de silêncios que ainda gritam, de abraços que ficaram no meio do caminho. E assim seguimos, cheios de ausências, mas transbordando de presenças invisíveis.

E quando chegar o dia em que o tempo achar que nos venceu, quando nosso corpo descansar e nossa voz se calar… ainda assim, estaremos vivos. Vivos na memória de quem nos amou. Porque quem ama, nunca se despede por completo.

No fim, o tempo passa. Mas a memória… Ah, essa nunca nos deixa partir de verdade.