ARTIGO
Quando o Jornalismo Vira Trincheira: o Viés, a Seletividade e o Poder Sem Contraponto
Malu Gaspar e o Jornalismo de Conveniência: Quando a Reportagem Serve ao Andar de Cima
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
A crítica ao jornalismo não é um ataque à liberdade de imprensa; ao contrário, é um exercício de cidadania, sobretudo quando o próprio jornalismo se apresenta como fiscal do poder. Nesse sentido, torna-se inevitável discutir o trabalho de Malu Gaspar, colunista de um dos maiores veículos do país, O Globo, cuja atuação tem sido alvo de questionamentos cada vez mais consistentes. Uma das críticas mais recorrentes diz respeito ao aparente alinhamento editorial de viés político-econômico liberal, perceptível especialmente quando seus textos tratam de governos progressistas, políticas de redistribuição de renda ou movimentos sociais, ocasiões em que suas análises soam menos como jornalismo investigativo e mais como opinião ideologicamente orientada, disfarçada de reportagem técnica. O problema não é ter opinião — todo jornalista tem —, mas não explicitá-la, transformando convicções pessoais em “verdades apuradas” e conduzindo o leitor em vez de informá-lo. Soma-se a isso a concentração recorrente de fontes no chamado “andar de cima”: mercado financeiro, empresariado e bastidores do poder institucional, enquanto vozes populares, sindicatos, movimentos sociais e especialistas críticos ao status quo aparecem de forma marginal ou simplesmente inexistem. Essa escolha não é neutra e constrói uma narrativa elitizada, que interpreta o Brasil exclusivamente a partir do topo da pirâmide social, como se os interesses do mercado fossem automaticamente os interesses do país. Mais grave ainda é quando surgem acusações baseadas em fontes não identificadas, não confrontadas e sem materialidade comprovável, o que coloca reputações em risco sem o devido lastro factual. Um exemplo emblemático foi o recuo da jornalista em denúncia envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, quando ficou evidente que não havia qualquer materialidade nas insinuações sobre uma suposta relação do magistrado com o Banco Master, episódio que expôs uma prática perigosa: lançar suspeitas graves antes da comprovação, apostando mais no impacto político da manchete do que na solidez da apuração. Também chama atenção o histórico lavajatista de Malu Gaspar, especialmente pelo silêncio ou pela ausência de críticas contundentes às inúmeras ilegalidades, abusos e instrumentalizações políticas da Operação Lava Jato, hoje amplamente documentadas, enquanto determinados atores políticos eram submetidos a tratamento implacável, revelando critérios desiguais de rigor. Essa seletividade reforça a percepção de que o peso das cobranças varia conforme o alvo, comprometendo a credibilidade do discurso anticorrupção e alimentando a sensação de dois pesos e duas medidas. Soma-se a isso o tom excessivamente categórico presente em muitas colunas, nas quais conclusões são apresentadas como verdades definitivas, reduzindo o espaço para nuance, dúvida ou contraponto legítimo, como se quem discorda estivesse automaticamente errado ou agindo de má-fé, o que empobrece o debate público. Por fim, o uso recorrente do jornalismo de bastidores como espetáculo transforma a política em novela palaciana, focada em intrigas, vazamentos e jogos de poder, enquanto temas estruturais como desigualdade social, políticas públicas e impactos concretos na vida da população ficam em segundo plano. Criticar esse modelo não é censura, nem perseguição, mas a exigência de que quem ocupa espaço privilegiado na formação da opinião pública respeite princípios básicos do jornalismo: equilíbrio, diversidade de fontes, rigor probatório, humildade intelectual e compromisso real com o interesse público. Quando o jornalismo se afasta da verdade factual e se aproxima demais da ideologia, ele deixa de ser ponte e passa a ser trincheira — e um país tão desigual não precisa de mais trincheiras, mas de informação honesta, plural e responsável.




