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Entre o Aplauso e o Desprezo: o Brasil que Recompensa Aparências e Puniça Coragem

Entre o Aplauso e o Desprezo: o Brasil que Recompensa Aparências e Puniça Coragem
Publicado em 29/05/2025 às 9:42


Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

Enquanto Marina Silva, mulher preta, seringueira, símbolo de resistência e profundidade, falava no Senado com a altivez de quem carrega nos ombros a floresta, a vida e os invisíveis da história — era tratada como incômoda. Olhos revirados, cadeiras esvaziadas, sussurros de deboche. Não é de hoje: esse Congresso nunca soube lidar com uma mulher preta que tem mais páginas de história que eles têm de currículo.

No mesmo Brasil e no mesmo Congresso — Câmara e Senado, tudo farinha do mesmo poder — Virgínia Fonseca, influenciadora digital, foi recebida com sorrisos, selfies e salamaleques. Ovacionada como se sua expertise em cremes de beleza e sorteios milionários a transformasse numa espécie de ícone da cidadania nacional.

Marina fala de Amazônia, justiça climática e direitos dos povos da floresta. Virgínia vende “milagres” embalados em cosméticos, entre um viral e outro. Marina inspira conferências da ONU. Virgínia viraliza com vídeos coreografados e frases que mal sobrevivem a um scroll.

Não, o problema não é gostar de Virgínia. O problema é desrespeitar Marina.

Enquanto uma representa o Brasil profundo, a outra reflete o Brasil da superfície. E neste país adoecido de aparências, onde a meritocracia se mede por seguidores e não por histórias de superação, coragem ou compromisso com o povo, o aplauso se torna um troféu vazio.

O Congresso que bajula o fútil e silencia o essencial é o mesmo que perpetua a desigualdade, o preconceito e a lógica dos privilégios. A lógica que repele quem questiona, quem propõe mudanças reais. Quem incomoda porque pensa além da vitrine.

Se você ainda não entendeu por que o Brasil tá nesse buraco, olha aí o retrato perfeito: a floresta ignorada, e o frasco aclamado.

Um país que troca Marina por Virgínia não está apenas perdido. Está sendo vendido — em suaves prestações de ignorância coletiva.

E o que mais dói é que isso não é só sobre duas mulheres. É sobre todas as vezes que a coragem foi ignorada e a farsa ovacionada.