CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 31 de outubro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O mês de outubro fechou as cortinas com um suspiro de veludo e cheiro de despedida. Lá no alto do telejornalismo, o templo da informação viu seu sacerdote baixar o microfone: William Bonner, o homem das sobrancelhas que narraram o Brasil por quase três décadas, deixou o altar do Jornal Nacional. Foram 29 anos de tragédias, escândalos e esperanças narradas com a mesma entonação de quem avisa: “Boa noite, mas nem tanto”. O país inteiro, nesse instante, virou sofá — e cada lágrima caiu como uma vírgula no texto da saudade televisiva.
Renata Vasconcellos piscou firme, como quem segura a emoção para não borrar o rímel da história, enquanto César Tralli ajeitava o terno novo, pronto para herdar o trono luminoso da bancada. O Brasil assistiu calado, com a alma entre o “fim de uma era” e o “boa sorte, garoto”.
Mas nem só de telaplasma vive o noticiário: nas águas sergipanas, um peixe-leão resolveu dar o ar — ou melhor, as barbatanas — da graça. Ele apareceu no Rio Vaza-Barris como um intruso de filme apocalíptico, um forasteiro com espinhos venenosos e sotaque estrangeiro. Sergipe, que até então era o último reduto do Nordeste sem esse visitante indesejado, agora também tem seu próprio vilão marítimo. O pescador Elder Vieira, um Aquaman do Mosqueiro, precisou usar arpão e coragem para capturar o bicho — que parecia mais um dragão disfarçado de escama. O peixe-leão, coitado, foi descartado… mas a metáfora ficou: enquanto uns peixes-leões são caçados no rio, outros nadam soltos na política, nas redes e nos gabinetes.
Falando em política, o presidente Lula assinou o tal projeto de lei antifacção, uma tentativa de colocar algemas na sombra. O texto vai para o Congresso — essa grande lagoa onde tubarões e lambaris debatem quem devora quem. O presidente da Câmara, Hugo Motta, prometeu prioridade na votação, o que na linguagem de Brasília significa “quando der”. O projeto pretende cortar as raízes do crime organizado, mas talvez precise antes desatar os nós do desorganizado poder.
E como se a Terra já não tivesse dramas suficientes, o deus Poseidon resolveu ganhar vida nas páginas militares: um míssil russo com o nome do senhor dos mares ameaça causar um “tsunami radioativo”. É a humanidade flertando outra vez com o apocalipse, dançando com a morte num baile de ogivas. Os generais do mundo brincam de marionetes atômicas, puxando cordas que podem afundar continentes. A guerra virou um espetáculo de horrores high-tech, com Poseidon transformado em protagonista de um filme que ninguém quer assistir até o fim.
Enquanto isso, Sergipe respira, o Brasil discute e o planeta treme.
Outubro se despede, carregando em seus bolsos as metáforas do tempo: o apresentador que se despede, o peixe-leão que invade, o presidente que promete e o míssil que ameaça. Tudo se mistura num caldo poético de fim de mês, onde a ironia cozinha a realidade em fogo brando.
Tchau, outubro.
Leve contigo o exagero das manchetes, os venenos das águas e as promessas das leis. Novembro vem aí — e com ele, talvez, um novo noticiário, um novo amanhecer, e quem sabe, um pouco menos de peixe-leão e um pouco mais de humanidade.




