CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 30 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Abril, esse artista dramático dos calendários, abaixa as cortinas como quem termina um espetáculo de tragédias, farsas e algumas comédias involuntárias. Foi-se com seus últimos aplausos abafados por sirenes, lamentos e declarações pendentes. E lá vamos nós, nesse trem desgovernado chamado Brasil, embarcar no giro de notícias do dia 30, último ato desse abril tão abrilhantado de contrastes.
Na cidade de Estância, as águas choraram em silêncio. Um lamento aquático: centenas de peixes boiaram como folhas secas em outono tóxico. A natureza mandou seu telegrama urgente, mas os homens, surdos por conveniência e cegos por costume, continuam a despejar descaso nos rios como quem joga fora o que não quer ver. A morte dos peixes não é o fim — é o prefácio de uma tragédia maior. A fauna agoniza, e nós, espectadores insensíveis, ainda postamos selfies na beira do abismo.
Enquanto os peixes flutuavam mortos, mais de 300 mil contribuintes sergipanos buscavam fôlego em meio ao tsunami do Leão. Ah, o Imposto de Renda, esse velho vampiro tributário que não chupa sangue, mas suga esperanças e madrugadas de CPF aberto. O povo preenche campos e planilhas como quem acende velas em promessa: “Que eu não caia na malha fina, amém”. O Brasil é uma igreja contábil — e a fé é medida em deduções.
No outro lado da fronteira, o drama ganhou ares de distopia: presos formaram um “SOS” humano em centros de imigração nos EUA. Um grito com braços, um pedido de socorro que virou manchete. Venezuelanos, latino-americanos, sul-americanos, seres humanos — reduzidos a cifras e suspeitas, empurrados como peças de um xadrez geopolítico onde o rei é o medo e os peões são os pobres. Acusados de integrar gangues, condenados sem julgamento, deportados à dor. E pensar que ainda há quem ache que a Terra prometida começa depois da alfândega.
Aqui no Brasil, o governo, esse maestro de um concerto afinado e desafinado, resolveu dar um passo de balé fiscal: regulamentou a execução do Orçamento com foco em controle. A palavra mágica da vez é déficit zero — como se fosse possível equilibrar o abismo com planilhas. Querem resultado primário neutro, mas esquecem que o povo não vive de neutralidade contábil. O prato na mesa não é medido por metas fiscais, mas por feijão, arroz e dignidade.
É tanta dor misturada com frieza tecnocrática que o coração da pátria bate como um relógio de ponto: rígido, repetitivo, cansado. E assim, fechamos abril, esse mês que foi mais labirinto que calendário. Um abril em que os rios morreram, os peixes boiaram, os imigrantes gritaram com o corpo, os pobres preencheram formulários e os governos brincaram de fazer contas.
Mas o amanhã, esse teimoso esperançoso, já espia pela fresta do tempo. Maio vem aí, e quem sabe ele nos traga mais humanidade e menos cálculo. Que venham as flores — mesmo que plantadas sobre os destroços de abril.




