CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 28 de outubro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O céu de Tobias Barreto decidiu virar tela de cinema cósmico. Um rastro luminoso cortou o firmamento como se um anjo tivesse perdido a lanterna ao fugir de um turno extra no paraíso. Os moradores, entre o espanto e o encanto, filmaram o clarão — talvez esperando ver um pedido atendido, uma estrela cadente promovida a breaking news. Mas o professor de Astronomia da UFS, com sua calma científica, jogou água fria no encantamento: não era milagre, era lixo espacial. Ah, o romantismo dos tempos modernos — até as estrelas agora são recicláveis.
O céu virou lixeira de luxo, e nós, meros inquilinos da Terra, assistimos ao espetáculo sentados no sofá do apocalipse, com pipoca e Wi-Fi. Ironia das ironias: enquanto o lixo sobe, a esperança desce em queda livre. O brilho que corta o horizonte é só reflexo do que deixamos queimar — não só metal, mas memória, sonho, e um pouco da dignidade planetária.
Mas enquanto Sergipe olhava pro alto, o Rio de Janeiro mergulhava nas sombras. Uma megaoperação policial transformou a cidade em sinfonia de tiros e lágrimas. Cento e vinte e um corpos tombaram, entre eles quatro policiais. O número é tão absurdo que parece invenção de ficcionista trágico. Na manhã seguinte, moradores encontraram mais de setenta corpos na mata — como se a natureza tivesse virado cemitério improvisado. O Rio, que já foi “Maravilhoso”, agora se parece com um quadro de Guernica remixado com funk proibidão.
É como se a violência tivesse ganho crachá de servidor público, expediente integral, férias acumuladas e décimo terceiro em sangue. E enquanto o povo tenta dormir, as balas fazem hora extra sem pedir licença.
Lá fora, o mundo também geme. O furacão Melissa, fúria de categoria 5, decidiu fazer turismo caribenho — passou pela Jamaica às 14h, no horário de Brasília, e à noite resolveu visitar Cuba, sem convite nem visto humanitário. Milhares foram retirados, o vento levou telhados, árvores, lembranças e até rezas. Uma brasileira relatou o que viu: solidariedade em meio à tempestade. É bonito ver que, mesmo quando o céu desaba, o coração humano ainda insiste em abrir janelas.
Enquanto isso, o Brasil celebrou o Dia do Servidor Público. Ah, esses heróis de carne, crachá e café requentado! Os que enfrentam a burocracia com a coragem de quem doma dragões de papel timbrado. Os que seguram o país com canetas bic e boa vontade, mesmo quando o salário atrasa e o reconhecimento não chega nem com GPS.
Mas há uma ironia no ar — talvez soprada pelo mesmo vento do furacão Melissa. Celebrar o servidor público no meio de tanto descaso é como colocar uma coroa de flores num relógio quebrado: bonito gesto, mas sem tempo para florescer. O servidor é o coração pulsante da máquina estatal, mas, nos bastidores, continua sendo tratado como parafuso enferrujado de engrenagem velha.
Hoje, 28 de outubro, é dia de lembrar que sem eles — professores, médicos, garis, enfermeiros, fiscais, policiais, técnicos, auditores — o Brasil desaba como telhado em furacão. São eles que limpam, ensinam, salvam, orientam, cuidam, fiscalizam e mantêm o país respirando, mesmo quando o oxigênio da esperança rareia.
E talvez aquele lixo espacial lá em Tobias Barreto não fosse apenas resto de satélite — talvez fosse um espelho simbólico do que fazemos com quem sustenta o Brasil: deixamos que brilhem brevemente, depois os queimamos na reentrada da indiferença.
Que o clarão no céu nos ilumine — e não nos queime. Que o furacão nos lembre que é no caos que nascem os gestos humanos mais bonitos. E que o servidor público, cansado, mal pago, mas ainda firme, siga sendo o astro silencioso que mantém o planeta Brasil girando, mesmo em órbita instável.
Porque servir é resistir. E resistir, neste país, é um ato de fé pública.




