CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de junho de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
E o sol nasceu, mas sua luz parecia não querer tocar o chão. A quarta-feira veio envolta num manto de chumbo, com cheiro de pólvora, fumaça e cinismo. Era 25 de junho, mas podia ser qualquer dia da tragédia brasileira: aqui, o calendário virou roleta, e o azar sempre cai no vermelho do sangue ou no preto do orçamento.
Logo cedo, o Brasil chorou uma de suas filhas. Layla Sofia, nome de flor e doçura, ainda aprendia a chamar o mundo pelo nome quando foi arrancada dele por um bárbaro travestido de motorista. Um homem que dirigia sem carteira, atirava sem permissão e vivia sem alma. Disparou, segundo ele, para “assustar”. E assustou sim: assustou a esperança, a paz, o senso do mínimo.
O crime nasceu de uma buzina — aquele sopro de impaciência do trânsito — e morreu em silêncio, na sepultura de uma criança de um ano e onze meses. Onze luas e um crime. Onze luas e uma bala. Onze luas e um país que não sabe proteger suas pétalas antes que o vento das armas as leve embora.
Enquanto isso, em Poço Verde, o fogo resolveu brincar de roleta-russa com 12 pequenos passageiros. Um transporte escolar virou labareda. Mas dessa vez, por entre a fumaça, o milagre deu as caras: ninguém se feriu. É como se o destino, envergonhado por Layla, tentasse se redimir. Milagre ou resistência? No Brasil de 2025, os dois andam juntos na garupa do transporte público.
Lá longe, nos escritórios gelados do Banco Mundial, engravatados brincam de Jenga com os pilares do Brasil. “Corta aqui, desmonta ali, impõe imposto acolá.” A solução para o endividamento virou receita de tortura: desvincular verbas sociais, tributar combustíveis fósseis, tirar da base para segurar o topo. O Brasil, esse equilibrista manco, continua andando na corda bamba com um elefante nas costas e o povo na ponta do nariz.
E o circo em Brasília não parou por aí. Com uma sincronia de quadrilha junina (daquelas em que só os políticos dançam), Senado e Câmara aprovaram no mesmo dia o aumento no número de deputados federais. Viva! Mais Excelências para representar a si mesmas! Mais vozes no eco do nada! E mais R$ 95 milhões por ano jogados na ciranda do desperdício. É a pátria armada com microfones dourados e discursos de papel molhado.
No palco do Supremo, a pauta do dia é a responsabilidade das redes sociais. “De quem é a culpa quando alguém espalha mentiras?” perguntam togados entre cafés e códigos. Ora, senhores, a culpa é de quem planta a semente da desinformação e de quem rega com cliques e curtidas. Mas a verdade é que todo mundo finge não saber — como se a ignorância fosse um óculos escuro para a realidade.
Enquanto isso, lá no palco global, a guerra entre Israel e Irã contabiliza mortos como quem soma grãos de areia em deserto de sangue. O cessar-fogo chega, mas as feridas ainda pingam. A matemática da guerra sempre fecha a conta com o saldo de inocentes. A humanidade continua a digitar seus próprios epitáfios no teclado da estupidez.
E, para coroar a ópera bélica, a OTAN decidiu que agora todos devem gastar 5% do PIB com defesa. Um desfile de tanques enquanto as escolas pedem giz. Trump, o maestro da sinfonia do medo, rege a partitura da submissão, e os países dançam. A Espanha não quis dançar — talvez ainda saiba que guerra não traz aplausos, apenas covas.
Por fim, um raio de civilidade atravessou a madrugada: a Coreia do Sul proibiu a carne de cachorro. Que ninguém mais morda o que late. Um gesto pequeno, mas que grita: é possível, sim, ser melhor. Nem que seja por decreto.
E eu, aqui de Japaratuba, olho o mundo girando entre balas, fogueiras, reformas e cachorros libertos. Me pergunto: em que ponto perdemos o fio da meada? Em que curva deixamos o bom senso descer? Em que esquina deixamos Layla para trás?
Neste país de feridas expostas e sorrisos cansados, só nos resta continuar plantando crônicas como quem planta flores no asfalto. Porque se a justiça ainda é lenta, que a palavra seja rápida. Que a poesia proteste, que o humor denuncie, que a emoção incomode.
E que Layla, lá do céu, seja uma estrela que brilhe.
Com poesia, lágrima e punho cerrado,
Antonio Glauber Santana Ferreira
Japaratuba-SE – 25 de junho de 2025




