CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de abril de 2025
Publicado em 26/04/2025 às 8:32

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Na manhã cinzenta deste 25 de abril, o mundo acordou com o latido de um cão preso entre as entranhas esquecidas da cidade e com o silêncio solene de uma humanidade enlutada.
Entre o gemido do vira-lata no esgoto e as orações murmuradas no Vaticano, desfilou a alma confusa dos tempos modernos: um misto de compaixão e contradição, de lágrimas sinceras e encenações públicas.

Em Laranjeiras, um cãozinho, mais herói do que muitos engravatados, caiu no buraco do esquecimento humano: a rede de esgoto — essa metáfora fétida do que ignoramos até que algo grite.
Ali, nas entranhas da calçada, o vira-lata resumia a nossa própria condição: latindo por socorro enquanto as estruturas públicas desabam sobre nossas cabeças. Foram três horas de resistência, três horas que pareciam três séculos para quem ouve o abandono em forma de latido.

E no compasso dessa ópera canina, o Corpo de Bombeiros virou maestro da esperança, enquanto a Secretaria de Infraestrutura autorizava o que já deveria ser obrigação: quebrar o chão endurecido da negligência.

Que ironia doce-amarga: precisamos ouvir um cachorro preso para lembrar que buracos existem… como se os da educação, da saúde, da ética e da moral já não latissem alto há anos.

Enquanto isso, a quilômetros de distância e a séculos de distância ética, os poderosos desfilavam suas lágrimas em Roma.

O Papa Francisco, aquele jardineiro da fé que tentou cultivar flores em solo de pedras. Lula, Dilma, Barroso e uma comitiva que mais parecia caravana de estrelas cadentes estiveram lá, posando para as câmeras entre suspiros e hashtags piedosas.
Lula destacou a “sabedoria, coragem e compaixão” do pontífice.

Um personagem da nossa ópera bufa do Brasil reapareceu: Fernando Collor, o cavaleiro da era dos pneus carecas, voltou aos holofotes — desta vez, atrás das grades.
Preso como quem finalmente encontra a ponta do fio de suas próprias tramoias, Collor agora ocupa uma cela especial, na ala VIP dos desabados da República.

Em seu gesto final, Collor assina a sua biografia não-autorizada com algemas brilhando sob a luz pálida da Justiça tardia.
Como dizia o velho provérbio: “Tardou, mas nem por isso adocicou.”

Ah, Brasil…
Enquanto choramos a partida de um Papa que tentou ser ponte, carregamos em nossos ombros políticos que sempre preferiram ser muros.
Enquanto salvamos vira-latas presos em buracos, deixamos crianças presas em escolas sem teto e futuros escorregando nos esgotos da indiferença.

O enterro de Francisco se avizinha, e com ele a esperança de que talvez, apenas talvez, uma pequena faísca de sua coragem ilumine o labirinto em que tropeçamos.

Talvez um dia, quem sabe, não precisemos mais quebrar calçadas para salvar cães nem demolir tribunais para tentar erguer Justiça.

Talvez um dia…
Mas, até lá, que nossos ouvidos estejam atentos:
aos latidos, aos gritos e às preces.