CRÔNICA
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 23 de março de 2025
Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na encruzilhada do calendário, o dia 23 de março nasceu com cheiro de café, mas logo se contaminou com o amargor da pólvora e o azedume das manchetes. Era domingo, dia que deveria ser dedicado ao descanso da alma e à conversa fiada na calçada, mas o Brasil, como sempre, preferiu o roteiro de série policial com pitadas de tragédia, drama político e ironias internacionais.
No Bairro Santa Cecília, em Nossa Senhora do Socorro, um homem de 44 anos, que não jogava dominó na praça nem frequentava missa, foi algemado pelas mãos do destino — e da polícia. Era mais um personagem do submundo, um carteiro das sombras, responsável por entregar encomendas embrulhadas em sacos plásticos e seladas com desespero. Ligado a uma facção baiana, ele distribuía não sorrisos, mas vícios; não esperanças, mas prisões químicas. Era o carteiro do caos, o padeiro das madrugadas perdidas.
Enquanto isso, a Justiça brasileira, entre uma toga e outra, apertava o cinto da moral e preparava o banho-maria para Carla Zambelli. A deputada, que já brincara de Lara Croft em plena São Paulo, agora via seu mandato escorrer pelo ralo do STF. Quatro votos a zero — uma goleada silenciosa no plenário virtual. A condenação e cassação por porte ilegal de arma provavelmente vai acontecer . Mas quem assistiu ao episódio de 2022 sabe que foi muito mais: foi um surto performático, um espetáculo de pólvora e ego em busca de likes e votos. Agora, o destino saca sua própria arma: a da justiça lenta, mas afiada como punhal de poesia.
E no cenário econômico, surge a nova moda da vitrine governamental: o consignado CLT. O povo, coitado, fez 40 milhões de simulações até domingo — 40 milhões de sonhos em planilhas, 40 milhões de tentativas de fazer milagre com salário apertado. Onze mil contratos assinados, onze mil cordas no pescoço, embrulhadas com fita de crédito e juros “baratinhos”, como se endividar fosse a nova forma de crescer. O Brasil é o país onde se planta carnê e se colhe cobrança judicial. Em vez de pão, nos dão prestações. Em vez de salário digno, oferecem limite parcelado em 48 vezes com juros de esperança.
Do outro lado do oceano, na África do Sul, o embaixador Ebrahim Rasool foi recebido como herói ao voltar da terra do Tio Sam, de onde foi expulso com o carimbo de “persona non grata”. Lá, onde a democracia se veste de arrogância, Rasool foi chutado da festa sem direito à sobremesa. Voltou aos braços do seu povo como mártir diplomático, como quem foi cuspido pelo império e abraçado pela nação. O Ocidente, que adora dar lição de moral, mais uma vez tropeça no próprio salto alto. Afinal, até a Estátua da Liberdade anda com os olhos vendados.
Mas o ápice da ironia veio com o retorno das ideias sombrias do passado. Autoridades do governo Trump ressuscitaram a Alien Enemies Act de 1798 — sim, você leu certo: mil setecentos e noventa e oito. Um documento mofado, parido antes da invenção da lâmpada, agora usado para deportar imigrantes venezuelanos. Gente como a gente, com família, história, fé e mochila nas costas. O pretexto? Suspeita de pertencerem a gangues. O método? Colonial. A justificativa? Medo. O resultado? Mais lágrimas na fronteira, mais páginas manchadas na história, mais cicatrizes abertas pela xenofobia.
No fim do dia, enquanto o sol escorria laranja pelo céu de Japaratuba, a sensação era de que o mundo inteiro estava no divã, tentando entender onde foi que se perdeu. Entre algemas em Socorro, armas em Brasília, dívidas no contracheque, expulsões diplomáticas e leis do século XVIII, percebemos que a humanidade ainda insiste em brincar de roleta-russa com o futuro.
Mas há esperança. Há sempre um feixe de luz escapando pelas frestas da tragédia. Talvez ele esteja no abraço do povo da Cidade do Cabo, na coragem dos ministros do Supremo, ou mesmo na consciência crítica de quem lê as entrelinhas do noticiário.
Que sigamos, então, com a caneta afiada e o coração em alerta. Porque enquanto houver manchetes, haverá crônica. E enquanto houver crônica, haverá alguém tentando transformar o caos em poesia.
Por hoje é só, mas o mundo continuará escrevendo — e eu também.




