CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de junho de 2025

O giro de notícias da véspera de São João

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de junho de 2025
Publicado em 24/06/2025 às 16:19


Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


“Entre fogueiras, fogos e farsas: um São João com cheiro de pólvora e perfume de hipocrisia”

Na véspera do santo mais dançante do calendário, o Brasil acendeu suas fogueiras e, junto com elas, reacendeu também seus velhos vícios. Enquanto balões subiam aos céus e o milho estourava no calor da tradição, sete cidadãos deram entrada no Huse — não para celebrar, mas para curtir na pele o efeito colateral da euforia: queimaduras. E não foram queimaduras de paixão junina, mas de pólvora mesmo. Porque aqui, o perigo é tempero e a imprudência, ingrediente secreto do nosso cardápio cultural.

Do outro lado da chama, vendedores de lenha erguiam suas barracas como se fossem tendas de milagreiros: “leva duas, paga uma e ainda garante a bênção de São João!”. O comércio da tradição segue firme, como se cada tronco vendido viesse com um certificado de identidade cultural. Afinal, em tempos de crise, fogueira também vira investimento — e a lenha, um símbolo patriótico com preço inflacionado.

Mas a verdadeira queima de estoque não aconteceu nas ruas, e sim nos bastidores da política. O STF, em noite de relâmpagos e trovões jurídicos, decidiu que sete deputados iriam pegar o beco por conta das tais “sobras eleitorais”. Sobras, diga-se de passagem, que não são as do mungunzá da ceia, mas aquelas migalhas de voto que, nas mãos certas, viram banquetes de poder. A Câmara, claro, fez cara de pamonha e tentou dizer que o forró já tinha começado em 2022, então não podia parar a música agora. Mas o Supremo tocou o zabumba da Justiça, e sete dançarinos foram gentilmente convidados a descer do palco.

Enquanto isso, no grande arraial internacional, Donald Trump, o folião-mor da geopolítica, resolveu brincar de São João no Oriente Médio. Com sua costumeira pirotecnia verbal, anunciou um cessar-fogo entre Israel e Irã, como se estivesse oferecendo uma quadrilha da paz. Disse que o risco era grande, mas o prêmio seria a paz “duradoura”. Duradoura como? Como namoro de festa junina, que começa no forró e termina no dia seguinte com cheiro de fumaça e gosto de amendoim azedo?

Trump, esse mestre da encenação global, não perde uma chance de montar seu palanque sobre brasas. A cada movimento, ele parece acender um rojão no quintal do planeta e gritar: “olha a cobra!”. E nós, crédulos, respondemos: “é mentira!”. Mas no dia seguinte, lá está o mundo… com as pernas queimadas.

Enquanto isso, aqui no Brasil, seguimos entre fogueiras e farsas. A política queima, o povo arde, e o país dança — ora quadrilha, ora solo, ora marchinha de protesto. O São João virou espelho do nosso cotidiano: cheio de cor, cheio de som, mas também cheio de susto. Porque quando a tradição se mistura à imprudência, e a justiça vira fogueira de vaidades, a gente corre o risco de confundir São João com São Judas Tadeu: padroeiro das causas perdidas.

Que no próximo ano, as fogueiras aqueçam corações, não queimem peles. Que as sobras eleitorais não sejam servidas em banquetes secretos. E que os acordos de paz durem mais que uma sanfona em dia de chuva.

Porque o Brasil, ah, o Brasil… esse arraial de contradições, merece mais do que faíscas de esperança. Merece um fogaréu de consciência.