CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de Agosto de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia 23 de agosto amanheceu como um jornal feito de tragédias e loterias, onde cada manchete é um bilhete premiado pela ironia do destino. O Brasil acordou de ressaca moral: os aposentados descobrem que suas pensões foram mordiscadas por associações-fantasmas que mais parecem castelos de areia soprados pelo vento da Polícia Federal. AAPPS Universo, Aapen, Conafer… nomes de galáxias, mas com práticas de atravessadores de esquina. As portas estão fechadas, os oficiais de justiça batem e só encontram o eco da impunidade. É como se as entidades tivessem aprendido com Houdini: desapareceram deixando apenas o rastro do golpe e o silêncio da vergonha.
Enquanto isso, em Sergipe, a ponte Construtor João Alves será parcialmente interditada. A ponte, esse fio de concreto que costura Aracaju a Barra dos Coqueiros, resolveu entrar em greve de meia jornada: das 9h às 15h. É o trânsito transformado em metáfora de um país parado, engarrafado, engessado. O motorista sergipano não sabe se chora pelo atraso ou ri do destino, que sempre coloca obras no horário em que o povo mais precisa atravessar.
Mas nem tudo é caos: o MPF decidiu promover castração de animais em Aracaju. Ironia das ironias: no país dos políticos que se reproduzem como coelhos, sobram seringas apenas para os cães e gatos. Os vira-latas ficam estéreis, enquanto os engravatados se multiplicam no cio da corrupção.
E por falar em corrupção, Alexandre de Moraes pede à Itália a extradição de um ex-assessor do TSE acusado de sabotar investigações sobre atos antidemocráticos. O pedido voa pelo Itamaraty como uma carta registrada, mas a Justiça brasileira parece sempre se arrastar com pernas de tartaruga. Será que a Itália responde ou manda o pacote de volta com o carimbo de “destinatário ausente”?
Na Mega-Sena, ninguém acertou os números. O prêmio acumulou em R$ 35 milhões. O Brasil inteiro virou jogador compulsivo, apostando que a vida pode ser resolvida com seis dezenas mágicas. A esperança, essa ilusionista, continua enganando multidões que sonham com mansões e iates enquanto mal conseguem pagar o aluguel.
Do outro lado da América do Sul, a Argentina prova que o tango da corrupção não dança sozinho. A irmã de Javier Milei é citada em supostos áudios de suborno. Ironia de novela: o libertário que prometia varrer o lixo estatal agora precisa explicar a sujeira debaixo do tapete da própria casa. Enquanto isso, Buenos Aires segue vendendo inflação, empanadas e escândalos em parcelas.
E, na China, a tragédia ganha forma de concreto: uma ponte em construção desabou, levando junto 12 operários. Lá, onde se constroem arranha-céus em tempo recorde, a pressa virou assassina. O chão engoliu homens como quem engole poeira. É o progresso com gosto de sangue, a modernidade que se levanta sobre escombros.
O dia 23 de agosto, portanto, foi uma colcha de retalhos costurada com linha de ironia e agulha de tragédia. O país das pontes interditadas, dos aposentados assaltados no contracheque, das apostas de loteria e das castrações seletivas. O mundo gira, mas sempre parece tropeçar na mesma pedra.
E eu, cronista, fico aqui perguntando: até quando aceitaremos viver num país onde os ladrões fecham as portas antes que a Justiça consiga abri-las? Até quando sonharemos com a Mega-Sena em vez de sonhar com um futuro digno?
A resposta talvez esteja naquela ponte interditada: seguimos atravessando o rio da vida em meia pista, desviando de buracos, presos em engarrafamentos, esperando que um dia – quem sabe – a passagem seja livre.
E que não seja apenas para os carros, mas também para a esperança.




