CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 22 de março de 2025
“O Sermão das Águas: Entre a Foz e a Fé”
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
No espelho d’água do calendário, o 22 de março se banha em significados. É o Dia Mundial da Água, mas também o dia em que os paradoxos se escorregam pelas areias do tempo, como se a própria Terra chorasse por dentro enquanto sorrisos plásticos celebram em superfície.
A Praia de Pirambu virou palco e altar. Com 150 quilos de resíduos retirados da foz do rio Japaratuba durante a campanha “Limpando Nossas Águas”, promovida pelo Instituto Idesa Brasil, através do projeto Pescando Saberes, em parceria com a Petrobras, UFS, escolas locais, REBIO Santa Isabel e a prefeitura de Pirambu. O Rio Japaratuba — coitado, engasgado com embalagens de uma falta de consciência ambiental e que não sabe reciclar valores —, homens, mulheres e crianças formaram uma procissão ecológica. Era como se quisessem batizar de novo o rio que há tanto tempo clama por salvação. O projeto “Pescando Saberes” lançou suas redes na esperança de ensinar aos pequenos que lixo no rio e no mar é feitiço que volta — e volta flutuando.
Enquanto isso, o IBGE, com seu estetoscópio estatístico, anuncia: os sergipanos estão vivendo mais! Aleluia! Alegria? Talvez. Porque viver mais num país onde a violência escolhe jovens como alvo preferido é prolongar o tempo de espera no banco da angústia. Homens morrem em acidentes e tiros. Mulheres, pelas garras invisíveis das doenças. A longevidade aumentou, mas a qualidade de vida ainda se esconde embaixo da cama, com medo do noticiário das 20h.
Em Aracaju, 140 bicicletas elétricas foram entregues. Um avanço, uma pedalada rumo ao futuro, diria algum entusiasta. Mas cá entre nós: a cidade que distribui bikes ainda tem bairros onde o esgoto corre mais solto que ciclista sem freio. A fotografia que exalta os pontos turísticos da capital ainda não revela os becos onde a realidade anda de chinelo gasto.
A Mega-Sena acumulou. Ah, a esperança numerada dos brasileiros. As dezenas sorteadas – 01, 37, 39, 40, 43, 59 – poderiam muito bem ser os números da sorte de um país que joga todos os dias contra o azar da desigualdade. Quarenta e uma apostas acertaram a quina e levaram um bom trocado. Mas o Brasil, esse apostador crônico, continua esperando o grande prêmio da dignidade.
E o povo, sedento por crédito, fez mais de 29 milhões de simulações no novo consignado CLT em dois dias. Dinheiro barato? Só se for na propaganda. Porque a conta vem, e vem com juros, mesmo quando disfarçados de oportunidade. O trabalhador, coitado, simula esperança no site e colhe realidade no contracheque.
Agora, se você pensava que já tinha visto de tudo… saiba que o contrabando de ovos superou o de drogas na fronteira entre Tijuana e San Diego. Sim, ovos! Essa proteína humilde virou moeda forte. O tráfico agora é de gemas, claras e cascas. A galinha, outrora símbolo do atraso, virou símbolo de resistência econômica. Enquanto isso, os Estados Unidos tremem com a possibilidade de uma omelete clandestina.
Do outro lado do mundo, o Papa finalmente terá alta após quase 40 dias de internação. Francisco, esse homem que carrega o peso do mundo nas costas franzinas, sai curado de uma pneumonia bilateral. Mas o mundo segue enfermo de guerras, ódios e intolerância. Ele repousará. Já a paz mundial, continua na UTI.
Na Ucrânia, drones russos continuam fazendo o céu chorar fogo. Em Gaza, os foguetes e a vingança dançam um tango de morte. O líder do Hamas foi morto por Israel. O que era trégua virou trincheira. O que era cessar-fogo virou piada de mau gosto. As crianças assistem aos bombardeios como se fossem queima de fogos no réveillon do inferno.
E enquanto os poderosos trocam tiros, declarações e cinismo, a água do mundo, essa senhora silenciosa, tenta lembrar aos homens que ela é fonte de vida — mas pode ser também o prenúncio do fim.
Hoje, mais que nunca, é preciso ouvir o rio. O Japaratuba, o São Francisco, o Amazonas. Eles sussurram entre redemoinhos: “Preserve cada gota, antes que a última lágrima do planeta escorra pela torneira seca do descaso.”
E que a crônica de hoje não seja só leitura, mas clamor.
Porque o mundo não precisa só de água.
Precisa de consciência líquida.
E de menos sede por lucro e mais sede por justiça.
Por hoje, molhemos a alma com poesia.
E enxuguemos o rosto com reflexão.




