CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 22 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 22 de abril de 2025
Publicado em 23/04/2025 às 15:33


Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Num Brasil que acorda com a luz mais cara e a esperança na conta de débito automático, o dia 22 de abril de 2025 não foi propriamente um feriado de descobrimentos — ao contrário, foi um dia em que o povo descobriu que o buraco na tomada é mais fundo do que o das caravelas de Cabral.

A tarifa de energia elétrica subiu como pipa em dia de ventania — só que, nesse caso, quem segura o carretel é o povo, e o vento é contra. O aumento da conta veio como um trovão na madrugada, sem aviso e sem piedade, queimando mais do que chuveiro velho em casa alugada. Enquanto isso, o empresário pequeno — aquele que vende açaí, frango frito ou esperança parcelada — se pergunta se vai precisar trocar a câmara fria por um isopor.

E por falar em calor e luz, despedimo-nos do jornalista Ivan Valença — uma voz que iluminou por décadas os corredores da notícia. Ivan, esse farol sergipano da palavra certeira, agora silencia, mas deixa um eco de lucidez na rádio da memória. Morre o homem, mas sobrevive a crônica que batia com precisão na alma da notícia e no juízo dos leitores.

Já Gilvan Donato, o artista das tintas sergipanas, que havia sumido nos labirintos cinzentos de São Paulo, reapareceu — renascido das margens de uma rodovia como quem escapa de um quadro expressionista. Desabou de uma ribanceira como se a própria arte, esgotada, tivesse tropeçado. Voltou para Sergipe, cambaleante e sensível, feito pincel que reencontra a paleta. Está em Cumbe, talvez repintando sua alma com as cores de casa, que são sempre mais vivas do que as da metrópole.

Enquanto isso, o MEC resolveu brincar de termômetro acadêmico e criou um novo exame para medir a temperatura dos cursos de medicina. Serão 56 mil candidatos buscando um estetoscópio e uma chance de curar o mundo, mas, por enquanto, quem precisa mesmo de remédio é o sistema educacional — que anda febril, desnutrido e com crise de identidade.

Lá longe, Istambul tremeu — não de emoção, mas de um terremoto que sacudiu a velha cidade como quem vira um tapete de memórias. Em pânico, pessoas se jogaram de alturas como se o chão fosse um alívio. Tragédia que nos lembra: a terra é firme só até que decida chorar por dentro.

O mundo girou, mas o eixo está torto. As notícias de hoje são pinceladas de ironia num quadro surrealista que se recusa a ser pendurado. Entre tremores sísmicos e elétricos, perdas humanas e retornos quase milagrosos, o Brasil segue como um samba de uma nota só desafinado pelo preço da conta de luz.

Reflexão final:
Se Cabral tivesse desembarcado hoje, com certeza teria voltado para Portugal alegando falta de condições energéticas. Porque, convenhamos, esse Brasil do século XXI está exigindo muito mais que caravelas — está exigindo fé, poesia e um bom gerador solar.

Com ternura, crítica e esperança,
Antonio Glauber Santana Ferreira
Professor e cronista de um país que resiste até na queda de energia
Japaratuba-SE