CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Sente-se.
Puxe a cadeira, ajeite a coluna, sirva o café — forte, porque as notícias não vêm descafeinadas.
Eu, Professor Antonio Glauber, após ler atentamente o noticiário do dia, venho abrir esta crônica como quem abre a janela numa manhã abafada: o vento entra, mas traz poeira junto. Ainda assim, é preciso respirar.
Vamos às notícias. Ou melhor: vamos ao espetáculo.
A primeira cena se passa em Santo Amaro das Brotas, onde a prefeitura resolveu brincar de dança das cadeiras — só que sem música e com portas batendo. Cargos comissionados foram exonerados como folhas secas varridas por um vento chamado FPM retido. O Fundo de Participação dos Municípios, esse parente distante que manda dinheiro quando quer, resolveu atrasar o abraço. Resultado? O prefeito anunciou o corte como quem anuncia chuva em dia de sol: sem alegria, mas com resignação.
Os cargos caíram um a um, feito dominós cansados. Canetas perderam tinta, salas perderam vozes, e os corredores ficaram mais silenciosos, como se o prédio suspirasse. A dívida com a Receita Federal virou um fantasma contábil puxando os pés no chão da prefeitura. A política, nessa hora, deixa de ser discurso e vira planilha. E planilha, meu amigo, não tem piedade — só células frias e números que piscam como olhos acusadores.
Corta para o segundo ato:
O Will Bank — aquele banco digital que prometia inclusão financeira, abraço virtual e senha sem humilhação — teve o coração desligado pelo Banco Central. Liquidação extrajudicial. Nome bonito para um velório sem flores. Um banco criado para os invisíveis acabou invisível também, evaporado nos códigos do sistema financeiro.
O Will nasceu com discurso social, linguagem acessível, promessa de futuro. Falava com gente que sempre ouviu “volte amanhã” no balcão dos bancos tradicionais. Mas o sistema, esse gigante de terno e gravata, tem pouca paciência com fragilidades. Quando o Banco Master caiu, o Will ficou de joelhos, respirando por aparelhos no tal do RAET, até que a tomada foi puxada da parede.
E lá se foi mais um sonho digital, como castelo de areia diante da maré dos juros altos. Os clientes ficaram com a sensação de quem acorda e percebe que o chão virou nuvem. Inclusão financeira, no Brasil, às vezes parece convite para uma festa onde a porta fecha cedo demais.
Enquanto isso, do outro lado do planeta, Donald Trump resolveu brincar de xadrez geopolítico com peças de gelo. Primeiro ameaçou tarifas contra países europeus — um porrete econômico de 10% — tudo por causa da Groenlândia, esse imenso cubo de gelo que virou objeto de desejo imperial. Depois, como bom personagem de si mesmo, recuou. Trump é assim: ameaça como trovão, mas às vezes entrega só o barulho.
A Groenlândia, coitada, virou metáfora de território cobiçado, como se fosse um terreno à venda com placa invisível: “Interesses globais passam por aqui”. Tarifas sobem, tarifas descem, e o mundo segue dançando conforme o humor do líder de ocasião. A diplomacia internacional, nesses dias, parece novela com capítulos escritos em caixa alta.
E quando achávamos que o noticiário já tinha cumprido sua cota de ironia, surge o acordo União Europeia–Mercosul, congelado como peixe no freezer institucional. O Parlamento Europeu decidiu enviar o tratado para revisão judicial. Placar apertado, tensão no ar, agricultores preocupados, discursos sobre sustentabilidade ecoando nos corredores de Bruxelas.
O acordo, que prometia pontes comerciais, virou ponte interditada. Pode atrasar dois anos. Dois anos! Tempo suficiente para plantar, colher, derrubar, replantar e ainda discutir tudo de novo. O Mercosul ficou esperando, com a mala pronta na sala, enquanto a Europa pede “só mais um minuto”. A economia global, mais uma vez, prova que anda de muletas jurídicas.
E assim, entre exonerações municipais, bancos que fecham, presidentes que recuam e tratados que congelam, o dia 21 de janeiro de 2026 se revela como um espelho trincado do nosso tempo. Tudo funciona, mas nada encaixa. Tudo anda, mas tropeça.
O Brasil municipal sofre com a falta de recursos. O cidadão simples perde o banco que o acolhia. O mundo poderoso brinca de tarifas. E os grandes acordos internacionais caminham a passos de tartaruga jurídica.
Respire fundo.
Levante da cadeira.
As notícias acabam, mas a vida continua — com humor como escudo, ironia como lente e a esperança, teimosa, insistindo em não pedir exoneração.
Porque, no fim das contas, ainda estamos aqui. Observando. Pensando. Escrevendo.
E enquanto houver palavra, haverá crítica.
Enquanto houver crítica, haverá resistência.




