CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de Setembro de 2025
As manchetes do 20º dia de setembro
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O sábado destacou-se em Pirambu com o sol vestido de maestro, regendo tambores, apitos e bandeiras. O desfile cívico, esse teatro de ruas, ressuscitou das cinzas depois de anos adormecido. Crianças e adolescentes marcharam como pequenos generais da esperança, professores transformaram o suor em poesia, e a Escola Municipal Mário Trindade Cruz desfilou como se fosse a própria noiva da educação, toda enfeitada, arrancando aplausos e lágrimas. Até as calçadas, cansadas de tanto esperar, bateram palmas. Era mais que desfile: era memória, era resistência, era Pirambu gritando que ainda sabe marchar.
Enquanto os alunos marchavam, lá em Aracaju, o Procon fazia sua coreografia silenciosa: analisava 43 postos, litros de gasolina, etanol e diesel como se fossem notas musicais. Conclusão? Não houve variação significativa. Ou seja, o combustível continua queimando o bolso e a paciência do povo na mesma temperatura. É o milagre da matemática: muda a pesquisa, repete-se o resultado, e o consumidor segue pagando caro para empurrar carro velho com combustível de ouro líquido. A única coisa que varia é o humor de quem abastece: ora indignado, ora resignado, ora xingando em tom de ópera dramática.
E como todo espetáculo político não vive sem trapalhadas, Brasília ensaiou mais um número tragicômico. A tal “PEC da Blindagem” virou peça de circo de horrores: deputados votaram a favor, depois pediram desculpa, dizendo que foi “erro gravíssimo”. Ora, meus caros, desculpa esfarrapada não apaga voto registrado em ata! Deputados arrependidos soam como músicos que, depois de desafinar no hino, juram que a culpa foi do vento. Teve até quem dissesse que votou sob “ameaça de pessoas influentes” — a democracia, então, virou refém de WhatsApp de gabinete. No teatro do Congresso, o povo continua na plateia, sem direito a vaiar.
Mas se a comédia brasileira já nos basta, os Estados Unidos resolveram servir o prato principal do autoritarismo gourmet. Trump e o Pentágono, esse gigante que gosta de brincar de dono do mundo, resolveu exigir que jornalistas submetam seus textos à aprovação antes de publicar. Caso contrário, perdem o credenciamento. É a censura vestida de farda, dançando com botas pesadas sobre a liberdade de imprensa. Um retrocesso com gosto de ditadura à moda antiga, só que temperada com arrogância high-tech. A imprensa livre, que sempre foi a centelha da democracia, agora precisa pedir bênção ao quartel-general. O papel que deveria sujar dedos de tinta está correndo risco de virar papel higiênico para o poder.
No meio disso tudo, fico eu, cronista, tentando decifrar um mundo que desfila entre fanfarras escolares e fuzis internacionais, entre desculpas políticas e pesquisas que não aliviam bolso nenhum. A vida, em sua ironia infinita, parece marchar com duas pernas: uma de esperança, outra de decepção.
E talvez a maior reflexão deste 20 de setembro seja esta: o povo ainda desfila, canta, aplaude, insiste em acreditar, enquanto os poderosos, lá de cima, brincam de empurrar o carro da história com o combustível da mentira.
No fim, resta-nos a lição do desfile: mesmo que as bandas desafinem, mesmo que a poeira suba, o coração coletivo ainda bate em compasso. E é nesse compasso, dolorido mas teimoso, que a esperança insiste em não se render.




