CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de julho de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de julho de 2026
Publicado em 21/07/2026 às 2:21

Por Antonio Glauber Santana Ferreira

No Dia da Amizade, 20 de julho de 2026, o mundo acordou querendo dar as mãos, abraçar o vizinho e mandar coraçãozinho no grupo da família, mas a realidade, essa comediante de humor duvidoso, resolveu servir um cardápio capaz de fazer até a amizade perder o apetite. Em Lagarto, oito toneladas de carne bovina foram encontradas armazenadas em condições impróprias para o consumo, escondidas em imóveis residenciais como se fossem hóspedes clandestinos de um hotel cinco estrelas da salmonela. Eram oito toneladas! Carne suficiente para fazer churrasco até o próximo eclipse, mas conservada de um jeito que provavelmente faria até um urubu pedir a presença da Vigilância Sanitária. O comerciante, pelo visto, confundiu residência com frigorífico e talvez imaginasse que geladeira fosse apenas uma sugestão inventada pelo capitalismo para aumentar a conta de energia. Felizmente, Polícia Civil, Guarda Municipal e Vigilância Sanitária chegaram antes que aquela carne ganhasse pernas, CPF, título de eleitor e começasse a passear pelas ruas de Lagarto. Fica a reflexão: amizade verdadeira é aquela que divide o churrasco; inimigo mesmo é quem convida você para comer uma carne dessas e ainda pergunta se prefere malpassada.

Enquanto isso, no palco internacional da amizade, o governo brasileiro publicou uma imagem das bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos de mãos dadas. Que cena bonita! Quase dava para ouvir os violinos da diplomacia tocando ao fundo e as tarifas comerciais chorando discretamente atrás da cortina. Brasil e Estados Unidos apareceram como dois amigos que brigam no grupo de WhatsApp pela manhã, discutem política depois do almoço e, à noite, postam uma fotografia abraçados com a legenda: “amizade acima de tudo”. A diplomacia é mesmo uma arte extraordinária: consegue transformar até um aperto de mãos em novela das nove. No Dia da Amizade, porém, vale a intenção, porque países são como parentes em casamento: podem passar anos discutindo, mas quando aparece a câmera, todo mundo sorri e abraça até aquele primo que bloqueou no Natal passado.

Do outro lado do Atlântico, o Reino Unido parece ter transformado a residência oficial do primeiro-ministro numa cadeira de salão de beleza: senta um, levanta outro, chama o próximo e ninguém sabe quanto tempo vai durar o penteado. Dez anos depois do Brexit, sete primeiros-ministros passaram pelo comando britânico. Sete! Se continuar nesse ritmo, daqui a pouco será necessário distribuir senha na entrada de Downing Street: “Premier número 128, favor dirigir-se ao guichê do caos político”. O Brexit, vendido como um divórcio que devolveria liberdade ao Reino Unido, acabou parecendo aquelas separações em que o casal divide a casa, o cachorro, as dívidas, os móveis e passa dez anos discutindo quem ficou com a air fryer. A União Europeia seguiu seu caminho, enquanto os britânicos descobriram que sair de uma relação é fácil no discurso; difícil é separar as contas, as fronteiras, os mercados e os fantasmas que continuam morando no porão da História.

E assim terminou o Dia da Amizade: com carne estragada escondida em casas, bandeiras internacionais andando de mãos dadas e o Reino Unido trocando primeiros-ministros como quem troca a senha do Wi-Fi. Talvez a amizade seja justamente o contrário de tudo isso. Amigo verdadeiro não esconde carne podre, não oferece abraço apenas para a fotografia e não abandona o barco quando o mar começa a espirrar água no sapato. Amizade é presença quando a festa acaba, quando a geladeira está vazia e quando o mundo parece um Brexit emocional sem acordo de saída. Porque, no fim das contas, governos mudam, premiês passam, bandeiras discutem e até oito toneladas de carne acabam no lixo, mas uma amizade verdadeira permanece fresca no coração — sem precisar de Vigilância Sanitária, referendo ou postagem oficial para provar que ainda está dentro da validade.