CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de Setembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de Setembro de 2025
Publicado em 20/09/2025 às 23:17

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O sol de 19 de setembro acordou como um lampião nervoso, faiscando no céu de Sergipe, iluminando as veias de um país que insiste em caminhar tropeçando.

No Hemose, o sangue ganhou ares de poesia: portas abertas no fim de semana para receber os doadores. É como se o coração do povo batesse fora do peito, pulsando em bolsas transparentes. O sangue, esse rio vermelho que insiste em fluir, virou metáfora da solidariedade, correndo mais generoso que muito governante que prefere represar recursos em cofres fechados. O Hemose amplia horário, enquanto Brasília fecha promessas em horário comercial. Ah, se a política tivesse a mesma coragem do sangue: circular, nutrir, salvar!

E por falar em circulação, Caio Bonfim desfilou passos no asfalto da marcha atlética como se fosse maestro da paciência. Um, dois, três, vinte mil metros de poesia em movimento. O Brasil, acostumado a correr atrás do prejuízo, encontrou em Caio a metáfora do impossível: vencer devagar, com disciplina de formiga e teimosia de rio que cava pedra. Quarta medalha, recorde de um homem que transforma suor em ouro líquido. Enquanto isso, o povo marcha em filas de ônibus lotados, sonhos pesados nos ombros, sem troféus nem pódios — apenas a medalha invisível da sobrevivência.

Do outro lado do mapa, o Caribe se converteu em palco de tragédia teatral. A Venezuela grita na ONU que seus pescadores foram confundidos com traficantes por barcos dos EUA. O mar, esse velho contador de histórias, agora devolve corpos que nunca quiseram ser heróis de guerra. Entre redes rasgadas e balas perdidas, a ironia amarga: quem lançava anzol por comida foi fisgado pela geopolítica. Crimes contra a humanidade, diz Caracas. “Operação contra o tráfico”, justificam os Estados Unidos. No fim, o mar chora salgado não só de natureza, mas de injustiça.

O cenário global parece sempre a mesma peça, só mudam os figurinos: potências brincando de justiceiros, enquanto pequenos países são tratados como notas de rodapé. É a marcha atlética da hipocrisia: cada passo uma contradição, cada quilômetro uma mentira.


Hoje, 19 de setembro, aprendi que o sangue pode ser mais generoso que um parlamento inteiro. Que um homem marchando pode ensinar mais sobre persistência do que mil discursos em palanque. E que o mar, cansado de engolir ilusões, devolve a humanidade com gosto de lágrima e pólvora.

No fim, resta-nos a lição: doar sangue, sim, mas também doar consciência. Marchar, sim, mas em direção à justiça. Pescar, sim, mas peixes de esperança em vez de cadáveres de guerra.

Porque viver, afinal, é caminhar entre metáforas — com a fé de que um dia o ritmo dos passos encontre o compasso da paz.