CRÔNICA
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 19 de outubro de 2025
Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O domingo amanheceu dividido entre o ouro e o sal. Em Marrocos, o sol vestiu turbante e dançou com o vento do deserto: a seleção sub-20 fez da bola um poema e escreveu, com dois gols de Yassir Zabiri, o verso que a Argentina não conseguiu rimar. Foi o tango perdendo o compasso para o batuque africano — um troféu inédito erguido como miragem que virou oásis. As areias do Saara viraram confete, e o tempo, ali, pareceu curvar-se diante de um novo faraó do futebol.
Enquanto os meninos do Marrocos beijavam o céu, o mar da Barra dos Coqueiros engolia o riso de um jovem de 19 anos. A praia do Jatobá, testemunha muda, transformou-se em altar de silêncio e espuma. O vento, cúmplice das ondas, carregava o grito engasgado de quem viu e não pôde salvar. A água — essa senhora de vestido azul que tanto encanta — mostrou mais uma vez seu temperamento: ora mãe que abraça, ora coveira que leva. Cada gota parecia chorar o nome que o mar levou para o infinito.
E o Brasil, com seu coração de retalhos, tentava reformar não só casas, mas também esperanças. O governo anunciou R$ 40 bilhões para o “Reforma Casa Brasil”, uma montanha de cifras que promete trocar telhados furados por sonhos impermeáveis. Talvez, entre tijolos e verbas, caibam também algumas paredes de dignidade. O povo, cansado de promessas em papel-cartão, espera que dessa vez o reboco seja de verdade — e que o cimento da fé seque antes que a chuva da burocracia desabe.
Lá nas alturas da política andina, a Bolívia decidiu trocar o tom de voz: Rodrigo Paz venceu as urnas e encerrou duas décadas de governos de esquerda. Evo Morales, que um dia foi trovão, agora ecoa como relâmpago distante. A América Latina, esse velho teatro de ideologias e paixões, trocou o figurino — mas o roteiro, talvez, continue o mesmo: o povo assistindo da plateia, pagando ingresso caro e esperando o intervalo que nunca vem.
No fim do dia, o mundo parecia uma colcha costurada com agulhas de ironia. De um lado, a vitória marroquina mostrava que os ventos mudam — até no futebol. Do outro, o mar sergipano lembrava que há coisas que a vitória não alcança. Entre reformas e revoluções, o planeta seguia seu baile confuso, dançando entre a tragédia e o milagre.
E eu, aqui em Japaratuba, olhei para o céu de outubro e pensei: a vida é uma bola que rola entre o deserto e o oceano — ora driblando o destino, ora sendo afogada por ele. O importante é continuar jogando, mesmo quando o placar insiste em ser implacavelmente humano.




