CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de julho de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de julho de 2026
Publicado em 21/07/2026 às 2:11

Por Antonio Glauber Santana Ferreira

O domingo, 19 de julho de 2026, acordou com uma bola nos pés, uma sirene ao longe e o Estreito de Ormuz parecendo uma panela de pressão esquecida no fogão da geopolítica. No futebol, a Espanha derrotou a Argentina por 1 a 0 na prorrogação e conquistou seu segundo título mundial, com Ferran Torres escrevendo o próprio nome na eternidade com a ponta da chuteira. A Argentina sonhava com duas Copas seguidas, já preparava a estante, tirava a poeira do espaço reservado para a taça e talvez até procurasse o endereço da gráfica para imprimir a faixa de campeã, mas a Espanha chegou como aquele convidado que ninguém consegue expulsar da festa, pegou a taça, apagou a luz e ainda gritou: “¡Hasta luego!”. Parabéns, Espanha! A Fúria foi tão paciente que esperou até a prorrogação para aplicar o golpe final no coração argentino. O futebol é esse poeta maluco: escreve alegria para uns com a mesma caneta que assina a tristeza dos outros. Enquanto os espanhóis abraçavam a taça, os argentinos abraçavam o velho e conhecido “e se…”, esse sofá desconfortável onde todo torcedor derrotado passa algumas noites.

Mas, longe do barulho dos estádios, a vida mostrou novamente que nem todo domingo termina com apito final e possibilidade de revanche. Em Nossa Senhora do Socorro, um homem de 46 anos morreu em uma pousada no Bairro Albano Franco. O Samu chegou, mas encontrou o silêncio definitivo, aquele silêncio que não aceita negociação, acréscimos nem prorrogação. E assim, enquanto milhões comemoravam um gol do outro lado do mundo, uma família provavelmente recebia a notícia capaz de transformar qualquer domingo em uma madrugada sem amanhecer. A vida tem dessas contradições dolorosas: em uma televisão alguém levanta uma taça; em outra casa, alguém derruba lágrimas. O mundo nunca fecha para balanço. A alegria e a tristeza trabalham no mesmo expediente, dividindo a mesma calçada da existência.

E, como se o planeta ainda estivesse tranquilo demais, o Estreito de Ormuz resolveu entrar no roteiro. Segundo a Guarda Revolucionária do Irã, dois navios explodiram depois de tentarem atravessar uma suposta “rota insegura”, enquanto outras embarcações teriam desistido do caminho. No grande GPS da geopolítica, parece que alguém selecionou a opção “rota mais rápida para a confusão”. Os governos trocam acusações, os navios carregam mercadorias e o cidadão comum carrega a preocupação de sempre: saber quanto essa brincadeira de gigantes vai custar no posto de gasolina. Porque guerra é assim: os poderosos movimentam peças no tabuleiro, mas quem acaba pagando pela mesa quebrada é quase sempre quem nem foi convidado para jogar.

E terminou assim o 19 de julho: a Espanha levantando uma taça, uma família enfrentando o peso de uma ausência e navios explodindo numa região onde a paz parece procurar endereço usando um mapa rasgado. O mundo continua girando com a elegância de um ventilador velho: faz barulho, balança, ameaça desmontar, mas ninguém encontra o botão para desligar. Talvez nossa maior vitória não seja conquistar Copas, controlar estreitos ou erguer bandeiras sobre os outros. Talvez seja aprender, finalmente, que a vida é curta demais para tanta guerra e preciosa demais para tanto ódio. Porque taças passam de mãos, impérios viram poeira e manchetes amanhã embrulham o esquecimento. O que fica mesmo é a maneira como atravessamos o campo da existência. E, se possível, que seja sem precisar explodir o navio do vizinho para provar que sabemos navegar.