CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 18 de maio de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 18 de maio de 2025
Publicado em 19/05/2025 às 3:30

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Era domingo, mas o mundo não repousava. O planeta girava com as mãos no rosto, aflito com suas feridas abertas. O calendário apontava 18 de maio, mas parecia um desfile de outonos trágicos, folhas caindo não dos galhos, mas da dignidade humana.

A primeira manchete soprava como vento de cobrança no ouvido do cidadão: prazo para regularizar o título de eleitor termina na segunda. O TSE virou despertador de consciências, mas, como todo alarme, incomodou mais do que despertou. Quem esquecer, além de perder o poder do voto, perde passaporte, cargo público e, com sorte, só não perde a paciência. No Brasil, ou você vota ou vira fantasma administrativo — um CPF com CPF, mas sem caminho. Afinal, a democracia pode estar enferma, mas ainda exige carteirinha para entrar no baile.

Já nos galinheiros do país, a gripe aviária ameaça levantar voo de novo. O vírus bica a porta de uma propriedade humilde, onde galinha tem nome e é quase da família. O governo garante que a exportação não será afetada — porque frango de subsistência não entra no cardápio da alta gastronomia internacional. Ironias do sistema: o frango que alimenta o pobre pode morrer em silêncio, desde que o frango de exportação esteja saudável e sorridente nas prateleiras do mundo.

Enquanto isso, no palco político do tango argentino, Milei dança mais uma vez com a vitória legislativa. Seu partido “Liberdade Avança” trocou os tradicionais compassos dos rivais por um passo mais frenético e imprevisível, uma milonga neoliberal com cactos no chão. Os hermanos, entre uma enchente e outra, resolveram seguir o violinista da liberdade, mesmo que o som da música seja um grito de desalento nos becos alagados de Buenos Aires, onde quase 3 mil pessoas foram evacuadas e três desapareceram. O rio transbordou, mas foi a política que levou os móveis, os sonhos e a paciência.

Na Romênia, entre castelos e vampiros políticos, o sol europeu nasceu para Nicusor Dan, o candidato pró-Europa que mordeu a extrema-direita com 54% de votos e um punhado de esperança. Uma reviravolta que parecia roteiro de novela romena: da desconfiança ao “dan”sado da vitória. Talvez um lembrete de que, às vezes, as urnas têm poesia.

Mas quem pensa que o mundo ficou só nos pingos de chuva e nos votos de urna, precisa olhar para Gaza — onde o céu virou cemitério e o chão, abismo. Bombardeios forçaram o fechamento do principal hospital no norte do território palestino. Mais de 130 mortos só neste domingo. O mundo fala em cessar-fogo enquanto o fogo não cessa. A paz virou piada contada em funeral. Lá, cada bomba é um ponto final na vida de alguém que só queria reticências.

Sim, meus caros, enquanto no Brasil o título de eleitor é cobrado como senha de entrada na cidadania, em Gaza o direito à vida não passa nem pelo portão da emergência hospitalar. Enquanto em Buenos Aires os políticos dançam em salões de poder, há cidadãos dançando na lama da enchente, com seus pertences boiando como memórias sem chão.

O planeta parece um grande galinheiro em surto, onde os que põem ovos de ouro para o mercado vivem sob vigília, enquanto os outros… os outros bicam a própria sorte para sobreviver.

Que venha segunda-feira. Que venham mais notícias. Que venha o senso crítico como vacina e a esperança como remédio. Mas que, sobretudo, não percamos o título maior que nos cabe: o de seres humanos.