CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de Setembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de Setembro de 2025
Publicado em 17/09/2025 às 9:01

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

A terça-feira desfilou com cara de enredo policial escrito por algum roteirista preguiçoso de série B: seis pessoas trancafiadas em um cárcere doméstico, em Graccho Cardoso, enquanto um assaltante armado brincava de diretor de terror barato. A casa virou caverna medieval, as vítimas reféns de um enredo sem final feliz. Um conseguiu escapar, herói improvável, fugindo pela fresta da realidade para avisar a polícia. O bandido? Fugiu também, deixando atrás de si um ferido de raspão, como se assinasse o episódio com tinta vermelha — um lembrete de que, no Brasil, a bala é vírgula e o medo é ponto final.

Na BR-101, um micro-ônibus decidiu ensaiar passos de circo e tombou em Rosário do Catete. Cinco feridos, três sobreviventes que preferiram voltar para casa de carro próprio, como quem diz: “Já basta de ser figurante no teatro do descaso.” O asfalto, sempre com fome, mastiga pneus, engole sonhos e cospe estatísticas. O transporte intermunicipal é uma roleta russa em movimento, onde o passageiro não compra passagem, mas ingresso para a loteria da tragédia.

Enquanto isso, em Aracaju, o deputado Ícaro de Valmir foi parar em hospital particular. A política sergipana, sempre um drama com camarotes reservados, assiste de longe: a doença dos representantes, afinal, é tratada com ar-condicionado e lençol limpo. Já o povo… esse continua esperando vaga na UPA, com ventilador quebrado e cadeira dura. Ironia da democracia: uns adoecem com boletins médicos, outros com boletos vencidos.

E o governador Mitidieri, depois de ouvir o barulho das panelas secas por causa das adutoras, resolveu anunciar auditoria. Sim, auditoria! Como quem chama padre para exorcizar encanamentos possuídos. Fala até em terceira linha da Adutora do São Francisco, obra que precisa de Brasília como padrinho. Enquanto isso, o povo aprende a coreografia da paciência: abre a torneira, nada; fecha a torneira, nada; e reza para que, algum dia, a água volte a ser mais comum que a promessa política.

No Planalto, a dança é outra: o governo segura o PL das big techs como quem segura vela em vento forte. Regulamentar conteúdo? Melhor deixar para depois. Por enquanto, só mexem com antitruste. É como varrer a sala enquanto o incêndio consome a cozinha. O mundo pega fogo com fake news, mas o Congresso decide discutir a marca do extintor.

Em São Paulo, depois da morte de um ex-delegado-geral, falam em dar proteção automática a autoridades que combatem o crime organizado. Automática! Como se o Estado fosse caixa eletrônico de segurança, mas apenas para quem carrega distintivo. O resto da população, refém de tiroteio, continua no modo manual: ajoelha e reza.

E lá longe, Putin aparece de farda, supervisionando exercícios militares como ator veterano que se recusa a sair de cena. Rússia e Belarus ensaiam guerras teatrais, com drones, tanques e músculos inflados. A plateia é a Otan, que assiste com cara de sogra desconfiada. O mundo vira tabuleiro, e as peças humanas são sempre descartáveis.

Enquanto isso, em Gaza, a comissão contratada pela ONU fala em genocídio; Israel nega. A palavra ecoa como trovão em deserto: cada lado diz ter a razão, mas no meio ficam crianças soterradas e mães costurando luto. A diplomacia internacional segue ensaiando sua ópera de negação, enquanto a morte rege a orquestra com batuta de ferro.

No meio de tanta tragédia, surge uma faísca de diplomacia: Mercosul e EFTA assinam acordo de livre comércio. O chanceler o chama de “histórico”, mas os papéis ainda precisam ser traduzidos, revisados e empacotados. A História, essa senhora preguiçosa, só acorda quando os burocratas permitem.

E, como se fosse aviso do tempo que passa, o cinema amanheceu mais pobre: Robert Redford, lenda viva da tela grande, adormeceu para sempre aos 89 anos. Ícone, vencedor de Oscar, homem que projetou sonhos no telão escuro, agora vira lembrança em filme antigo. A vida, às vezes, é isso: um rolo que acaba no silêncio do projetor.


O dia 16 de setembro foi um mosaico de tragédias e ironias: cárceres no sertão, ônibus tombados, deputados internados, governadores prometendo água, presidentes brincando de generais, e o mundo, entre acordos comerciais e acusações de genocídio, continua girando — torto, mas girando.

Eu, de Japaratuba, escrevo entre a lágrima e o riso, entre o sarcasmo e a poesia. Porque o jornalismo narra, mas a crônica sente. E, se a vida insiste em ser manchete de tragédia, cabe à crônica transformar notícia em reflexão: somos reféns de ladrões armados ou de governantes desarmados? Passageiros de ônibus tombados ou de um país tombado?

No fim, talvez a maior notícia seja sempre a mesma: ainda estamos vivos.