CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de maio de 2025
Notícias do 16º dia de maio entre luzes de esperança e sombras de escárnio. Benício respirou. Kyle sobreviveu. O país pariu menos. Trump pariu uma ideia que nem a comédia suporta.
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Abram as cortinas da sexta-feira, o palco do dia 16 de maio está armado. O sol, com cara de meia-luz de teatro, acende as coxias do cotidiano, e os personagens — trágicos, heroicos, cômicos e patéticos — entram em cena sob o aplauso ou o espanto da plateia planetária. Prepare-se: hoje tem poesia, bomba e DNA.
No primeiro ato, um anjo sem asas — o pequeno Benício, que ainda nem sabia pronunciar “vida” — engasga com o próprio início da existência. No mesmo compasso, as chamas dançam no bairro como se fossem coreografia do caos. Mas eis que surgem os bombeiros: centauros de coragem em viaturas velozes, misto de Prometeu moderno e São Jorge de capacete.
Enquanto o fogo tenta escrever tragédia nas entrelinhas de Socorro, o destino rabisca outra história: a de um bebê salvo da morte por mãos que apagavam incêndios, mas acenderam esperança.
Benício não virou cinza, virou metáfora: a vida é frágil, sim, mas quando o socorro vem do Socorro, até o nome se ilumina.
No segundo ato, o palco muda: saímos do calor das labaredas para o gelo das fraudes. Em Aracaju, hackers jogam com o destino alheio como se a ética fosse apenas um bug no sistema. Nove indiciados por fraude em casas lotéricas — mas o prêmio, desta vez, não é em dinheiro: é em algemas.
A sorte, minha gente, não se compra com linhas de código nem se burla com cliques sorrateiros. O azar da honestidade é a sorte dos canalhas — até que a justiça reinicie o sistema.
E no terceiro ato… vem ele, o milagre dos laboratórios: o DNA, essa poesia em código, teve um verso reescrito. Kyle, um bebê que nasceu com uma vírgula torta no genoma, foi curado com a pena afiada da ciência.
Edição de base, chamam. Mas deveria chamar-se reverso da sina. Porque o que antes era sentença, agora é possibilidade.
Se Shakespeare escrevia o destino com penas, hoje o destino se edita com seringas.
Uma letra entre três bilhões. Um erro fatal corrigido. Um novo verbo: viver.
E enquanto a ciência celebra o futuro em laboratório, o Brasil lamenta o silêncio das maternidades. Segundo o IBGE, tivemos o menor número de nascimentos desde 1976. O país que um dia foi sinfonia de berços agora é eco de silêncio.
As mães estão engravidando tarde — talvez porque o país só ofereça cedo o caos, e tarde a estabilidade.
A maternidade virou ousadia, e o choro do bebê está cada vez mais raro que trovão em setembro.
E no último ato, o palco vira circo — mas sem palhaço inocente.
Donald Trump, o mestre de cerimônias da distopia, quer transformar o drama dos imigrantes em entretenimento de quinta categoria. Um reality show onde pessoas competem por cidadania como se a dignidade fosse prêmio de gincana.
Rolam troncos, montam carros, garimpam ouro — e são garimpados, sem saber, pela humilhação.
A Estátua da Liberdade não chora — mas deveria. De vergonha.
E assim termina a peça do dia, entre luzes de esperança e sombras de escárnio.
Benício respirou. Kyle sobreviveu. O país pariu menos. Trump pariu uma ideia que nem a comédia suporta.
O mundo gira — mas às vezes parece patinar no ridículo.
E você, espectador atento:
em que parte da peça está sua voz?
No aplauso? No protesto? No silêncio?
Porque, como diria o velho cronista que habita meu peito:
Enquanto houver notícia, haverá poesia.
Enquanto houver injustiça, haverá crítica.
Enquanto houver vida, haverá crônica.
Crônica do Professor Antonio Glauber
Japaratuba-SE, 16 de maio de 2025




