CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de julho de 2025

O GIRO DE NOTÍCIAS DO DIA 16 DE JULHO DE 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de julho de 2025
Publicado em 17/07/2025 às 13:11


Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


O dia 16 de julho amanheceu como um museu sem curadoria: com peças preciosas espalhadas pelo chão da realidade, misturadas a ruínas políticas, destroços geopolíticos e holofotes apagados nos céus de Aracaju. Era quarta-feira, mas parecia um relicário da ironia esculpido em sarcasmo e poeira.

No laboratório da UFS, onde o passado repousa em fragmentos de ossos e sementes ressequidas, o Ministério Público Federal resolveu bater na porta da ciência. Querem um lugar digno para o acervo biológico e arqueológico — que hoje vive como inquilino precário no porão das responsabilidades individuais. É o Brasil, onde o fóssil tem mais memória que o orçamento público. Professores viraram sentinelas de dinossauros, múmias e esperanças. Cada pedaço de cerâmica carrega mais história do que certos discursos em Brasília.

Enquanto isso, no céu de Aracaju, dois pássaros de ferro sobrevoaram a escuridão e deram meia-volta. Não era protesto, era falha de luz. O aeroporto apagou o pisca-pisca e virou sala escura de cinema sem bilhete. Os voos pousaram em Salvador, talvez em busca de uma pista iluminada ou de um acarajé de consolo. A Aena, administradora do aeroporto, informou que “foi detectado um problema”. Eu diria que foi detectada uma metáfora: o Brasil ainda tenta pousar em si mesmo, mas falta luz na pista, coragem na torre e piloto com nervo firme.

Em Brasília, o presidente Lula acendeu uma vela à racionalidade e vetou o aumento no número de deputados. O Congresso, sempre faminto, queria engordar mais oito cadeiras na Câmara — como se o Brasil estivesse magro de políticos. Lula disse “não” com um gesto que mais pareceu um suspiro de quem sabe que gastar mais com discursos vazios é como construir camarotes num Titanic orçamentário. Que se virem com os 513, pois já fazem bagunça suficiente sem precisar de reforço.

Mas a mesma Brasília que economiza cadeiras é a que assinou a sentença da natureza: um projeto que enfraquece o licenciamento ambiental foi aprovado. Vão passar trator em cima da floresta com autorização carimbada. É como dar carta branca para pintar bigode na Mona Lisa. Os ambientalistas gritam do lado de cá da mata, mas os empreiteiros já estão com a motosserra ligada. A desculpa? “Agilidade”. Porque devastar rápido agora é eficiência, e questionar virou “atraso ao progresso”.

Enquanto isso, no palco internacional, Israel resolveu escrever mais um capítulo de sua tragédia bélica com tinta de fogo. Jogou uma bomba em cima do Ministério da Defesa da Síria como quem entrega flores com dinamite no caule. A Al Jazeera transmitiu o horror ao vivo, porque o sofrimento hoje tem audiência e replay. A explosão ergueu no ar não apenas fumaça, mas o grito calado das crianças que aprenderam o alfabeto com o som das sirenes.

E nós, espectadores desse teatro de absurdos, seguimos como arqueólogos da esperança — tentando encontrar vestígios de humanidade em meio a tanto entulho.

Talvez, no futuro, descubram nossos fósseis junto aos das coleções da UFS. Vão nos catalogar como a espécie que tentou pousar no próprio país, mas foi desviada pela escuridão. A espécie que teve chance de proteger a natureza, mas preferiu vendê-la em prestações. A espécie que via guerra ao vivo e ainda dizia: “passa o controle remoto”.