CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de maio de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
No tabuleiro da Terra, mais um dia se pôs — 15 de maio — com seus reis mortos, suas damas de luto, seus peões em busca de abrigo, seus cães sem tabuleiro e seus gatos sem colos.
Aracaju, com o coração coberto de tricô solidário, se veste de humanidade. A Campanha do Agasalho é como um abraço de lã nas costelas de quem o mundo esqueceu de esquentar. É como se o frio, ciente da bondade, tremesse mais que o necessitado. A guarda municipal, por ora, não guarda apenas o concreto — guarda calor, esperança e um fiapo de justiça climática. É lindo, sim, mas também triste saber que a bondade ainda é exceção protocolada e que, no século XXI, doar roupa ainda é revolução.
Enquanto isso, no teatro sombrio das tragédias domésticas, uma médica, outrora guardiã da vida, sai do presídio pela porta dos fundos da Justiça. O jaleco virou metáfora de um Brasil de bisturi afiado — corta-se a liberdade de uns, costura-se o privilégio de outros. O cadáver da impunidade repousa sob um laudo que diz: “prisão domiciliar”. E a sociedade, anestesiada.
Na contramão dos crimes, há bichinhos latindo por socorro. 70 almas peludas esperam o milagre da adoção no Shopping Riomar. Eles não pedem herança, não julgam aparência, não traem a confiança. São anjos com patas, que esperam não por um lar — mas por um colo, um nome, um cheiro de gente que não abandona. Quem adota um cão, ganha um vigia de coração. Quem adota um gato, recebe um filósofo de bigodes. E, entre microchips e assinaturas, são os humanos que ganham um pedaço de céu.
No Palácio da Alvorada, brilha a novidade solar — finalmente, o Sol foi convocado a pagar as contas da república. R$ 1 milhão de economia por ano, dizem. Talvez, se o astro-rei continuar colaborando, sobre até para comprar um cobertor extra lá na periferia esquecida. A energia do povo agora abastece até os tetos dos palácios — falta apenas iluminar os porões das decisões políticas.
Enquanto isso, Anatel e Ancine, como dois justiceiros do streaming, anunciam o fim da pirataria como se estivessem enfrentando corsários do século XXI. É bonito no papel, mas o povo só quer ver sua novela, seu filme, sua série. Quem sabe, no futuro, também lutem com o mesmo afinco contra os piratas do orçamento, os corsários das emendas, os saqueadores da esperança.
Do outro lado do mapa, o velho Mujica se despediu como viveu: simples, humano, íntegro. A viúva abraçando as bandeiras era a metáfora do amor abraçando a pátria, da humildade vencendo o tempo. Um funeral com cheiro de terra molhada, de história sem maquiagem, de política sem Photoshop. Mujica não deixou herança, deixou exemplo — e isso, no Uruguai, ainda vale mais que uma conta nas Ilhas Cayman.
Por fim, a Europa — aquele velho continente com rugas nucleares — começa a cogitar que a paz agora mora no botão vermelho de Macron. Uma ironia atômica: para manter a paz, o homem moderno prepara a guerra. Nada mais europeu que transformar a bomba em argumento e a diplomacia em ameaça velada. E a humanidade, feito gato assustado, vive de orelha em pé e alma em sobressalto.
No grande teatro da vida, seguimos. Entre agasalhos e bombas, entre adoções e presídios, entre o Sol e os mísseis, o mundo insiste em caminhar — tropeçando na própria sombra, mas ainda teimando em buscar a luz.




