CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de Setembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de Setembro de 2025
Publicado em 15/09/2025 às 6:42

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O domingo, 14 de setembro de 2025, foi como um copo vazio esquecido na mesa: sede coletiva e um barulho de cano quebrado ecoando pela alma de Aracaju, Barra dos Coqueiros e Nossa Senhora do Socorro. A adutora do São Francisco, cansada de tanto carregar o peso da indiferença, resolveu se partir como coração de adolescente em novela mexicana. Rompeu-se em prantos de barro, e o povo ficou com a garganta seca, tentando arrancar gotas de dignidade de torneiras que só tossiam vento.

As casas viraram desertos improvisados, onde baldes sonhavam ser oásis e chuveiros se transformaram em esculturas mudas, decorativas como bibelôs herdados da avó. Em restaurantes, panelas choravam sem água para cozinhar, e fregueses lambiam os beiços com a nostalgia daquilo que nunca chegou ao prato. Até os banheiros, coitados, ficaram com vergonha, transformando-se em confessionários de paciência e mau cheiro.

E foi então que a solução mágica apareceu: os carros-pipa, esses camelos motorizados que atravessam o Saara sergipano. Quarenta deles desfilando pelas ruas, não como heróis, mas como vendedores de esperança engarrafada, cobrando caro por cada gole. O luxo, nesse dia, não foi vestir seda ou beber vinho, mas lavar o rosto com dignidade e ter água para molhar o feijão.

Enquanto o povo lutava por um copo d’água, em Brasília a Receita Federal afiava as garras digitais para montar um super sistema que promete rastrear até o suspiro tributário de cada cidadão. Setenta bilhões de documentos por ano! Um Big Brother fiscal, capaz de ver até a sombra da moeda que cai do bolso furado. Querem acabar com a sonegação, dizem. Mas o brasileiro, esse mágico do improviso, sempre encontra um truque novo: enquanto o Leão prepara o bote, o povo treina o salto mortal para escapar do imposto sobre a esperança.

E no grande palco internacional, a Romênia acusava a Rússia de fazer drones passearem pelo seu céu como pombos invasores, quase sendo abatidos por caças F-16. O mundo, cansado de paz, continua ensaiando a coreografia da guerra: um passo de drone, uma pirueta de míssil, uma cambalhota de discurso diplomático que nunca evita o tombo.

No fundo, o domingo foi um espelho rachado: aqui, a falta d’água; ali, a abundância de cobranças; mais além, a falta de limites da violência travestida de tecnologia. Tudo conectado por um fio invisível chamado descaso humano.

E eu, no meu canto, penso: não é irônico? O São Francisco, rio chamado de “Velho Chico”, que deveria ser pai generoso das águas, virou órfão de cuidado e padrasto de promessas. A sede que atormenta Sergipe é a metáfora perfeita do nosso tempo: estamos secos de água, secos de justiça, secos de humanidade.

Mas ainda resta fé, mesmo que em goles pequenos. Talvez a vida seja isso: um copo meio vazio que a gente insiste em encher com esperança.

No fim das contas, o domingo de 14 de setembro não foi apenas sobre a falta de água. Foi sobre a sede de dignidade. E essa, meus amigos, nem carro-pipa consegue trazer.