CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de Setembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de Setembro de 2025
Publicado em 13/09/2025 às 17:36

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O crepúsculo da manhã do dia 12 de setembro de 2025 surgiu como um quadro de Portinari: cheio de cores fortes, pinceladas dramáticas e personagens que parecem saídos de uma mistura de sonho e tragédia. De um lado, 18 mil professores em Sergipe recebem a notícia de que, enfim, o vento sopra algum alívio em suas velas: os precatórios do Fundef vão pingar no bolso. Dinheiro atrasado, dinheiro que vem com cheiro de mofo e gosto de justiça tardia, mas que ainda assim brilha como ouro na palma calejada de quem há muito só recebia giz e pó como salário extra.

Imaginemos a cena: professores, esses Don Quixotes do giz, lutando contra os moinhos burocráticos do Estado, finalmente veem cair do céu a chuva de R$ 136 milhões. É quase como se o STF tivesse encarnado em São Pedro, abrindo as nuvens da lei e liberando o aguaceiro. O detalhe é que, nesse Brasil de contas atrasadas, a água não cai para molhar o chão fértil da educação, mas para regar o boleto, o fiado no mercadinho e a prestação da geladeira que geme de tanto ser remendada.

Enquanto isso, na vitrine da ganância, a Polícia Federal exibe sua coleção recém-adquirida da “máfia do INSS”: quadros, esculturas, obras de arte que pareciam mais à vontade em um museu do que em cofres de larápios engravatados. Ironia do destino: aposentados tiveram o pão roubado da mesa, enquanto o ladrão pendurava um Portinari na parede da sala. É o Brasil sendo pintado com as tintas do absurdo — cores vivas, traços grotescos, molduras de cinismo. Dizem que algumas dessas obras valem R$ 5 milhões. Pois eu digo que valem lágrimas. Porque cada pincelada roubada é o reflexo de um prato vazio que poderia ter sido cheio.

E, como se o planeta fosse palco de um teatro tragicômico, a Assembleia Geral da ONU decidiu apoiar a criação de um Estado palestino, mas fez questão de riscar o Hamas do convite. O placar? 142 a favor, 10 contra — entre eles, claro, Israel e o eterno escudeiro, os Estados Unidos. O mundo continua a brincar de tabuleiro de War, mexendo povos como peças descartáveis, enquanto mães choram filhos e os escombros ecoam hinos desafinados de liberdade.

Perceba o contraste: em Sergipe, professores celebram um pagamento atrasado como se fosse uma vitória olímpica. Em São Paulo, obras de arte são resgatadas da lama de uma corrupção que custou R$ 6,3 bilhões. No mundo, o povo palestino ganha o direito de existir, mas sem direito a todos os convidados da sua própria festa. É como se a humanidade estivesse sempre ensaiando para um espetáculo que nunca estreia: promessa de justiça que chega atrasada, democracia que se veste de hipocrisia, e uma paz que insiste em ser só palavra, nunca realidade.

Talvez seja isso que chame de “sexta-feira histórica”: a justiça chega de bengala, a corrupção veste terno de gala e a ONU escreve resoluções com penas de pavão. Nós, meros espectadores, aplaudimos ou vaiamos, mas no fundo sabemos: o palco é o mesmo, os atores mudam, mas a peça segue sendo a mesma tragicomédia universal.

E ao fechar esta crônica, respiro fundo e penso: se um quadro de Portinari pode ser sequestrado, se professores precisam esperar décadas para receber o que é seu, e se povos continuam sendo tratados como moedas de troca, talvez o verdadeiro museu do mundo seja a memória da nossa própria indiferença.

No fim, resta-nos uma esperança tímida, mas resistente: que a próxima tela pintada pela história seja menos cinza, menos hipócrita, e mais humana. Porque até a ironia, quando cansa, pede para descansar em paz.