CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O crepúsculo da manhã do dia 12 de setembro de 2025 surgiu como um quadro de Portinari: cheio de cores fortes, pinceladas dramáticas e personagens que parecem saídos de uma mistura de sonho e tragédia. De um lado, 18 mil professores em Sergipe recebem a notícia de que, enfim, o vento sopra algum alívio em suas velas: os precatórios do Fundef vão pingar no bolso. Dinheiro atrasado, dinheiro que vem com cheiro de mofo e gosto de justiça tardia, mas que ainda assim brilha como ouro na palma calejada de quem há muito só recebia giz e pó como salário extra.
Imaginemos a cena: professores, esses Don Quixotes do giz, lutando contra os moinhos burocráticos do Estado, finalmente veem cair do céu a chuva de R$ 136 milhões. É quase como se o STF tivesse encarnado em São Pedro, abrindo as nuvens da lei e liberando o aguaceiro. O detalhe é que, nesse Brasil de contas atrasadas, a água não cai para molhar o chão fértil da educação, mas para regar o boleto, o fiado no mercadinho e a prestação da geladeira que geme de tanto ser remendada.
Enquanto isso, na vitrine da ganância, a Polícia Federal exibe sua coleção recém-adquirida da “máfia do INSS”: quadros, esculturas, obras de arte que pareciam mais à vontade em um museu do que em cofres de larápios engravatados. Ironia do destino: aposentados tiveram o pão roubado da mesa, enquanto o ladrão pendurava um Portinari na parede da sala. É o Brasil sendo pintado com as tintas do absurdo — cores vivas, traços grotescos, molduras de cinismo. Dizem que algumas dessas obras valem R$ 5 milhões. Pois eu digo que valem lágrimas. Porque cada pincelada roubada é o reflexo de um prato vazio que poderia ter sido cheio.
E, como se o planeta fosse palco de um teatro tragicômico, a Assembleia Geral da ONU decidiu apoiar a criação de um Estado palestino, mas fez questão de riscar o Hamas do convite. O placar? 142 a favor, 10 contra — entre eles, claro, Israel e o eterno escudeiro, os Estados Unidos. O mundo continua a brincar de tabuleiro de War, mexendo povos como peças descartáveis, enquanto mães choram filhos e os escombros ecoam hinos desafinados de liberdade.
Perceba o contraste: em Sergipe, professores celebram um pagamento atrasado como se fosse uma vitória olímpica. Em São Paulo, obras de arte são resgatadas da lama de uma corrupção que custou R$ 6,3 bilhões. No mundo, o povo palestino ganha o direito de existir, mas sem direito a todos os convidados da sua própria festa. É como se a humanidade estivesse sempre ensaiando para um espetáculo que nunca estreia: promessa de justiça que chega atrasada, democracia que se veste de hipocrisia, e uma paz que insiste em ser só palavra, nunca realidade.
Talvez seja isso que chame de “sexta-feira histórica”: a justiça chega de bengala, a corrupção veste terno de gala e a ONU escreve resoluções com penas de pavão. Nós, meros espectadores, aplaudimos ou vaiamos, mas no fundo sabemos: o palco é o mesmo, os atores mudam, mas a peça segue sendo a mesma tragicomédia universal.
E ao fechar esta crônica, respiro fundo e penso: se um quadro de Portinari pode ser sequestrado, se professores precisam esperar décadas para receber o que é seu, e se povos continuam sendo tratados como moedas de troca, talvez o verdadeiro museu do mundo seja a memória da nossa própria indiferença.
No fim, resta-nos uma esperança tímida, mas resistente: que a próxima tela pintada pela história seja menos cinza, menos hipócrita, e mais humana. Porque até a ironia, quando cansa, pede para descansar em paz.




