CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de abril de 2025
Publicado em 13/04/2025 às 10:38

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


E num sábado em que o céu parecia ter brigado com a terra, a chuva caiu com o peso de um coração cheio de mágoas. Trovões urraram como quem desabafa segredos antigos, e raios cortaram o céu sergipano como se estivessem assinando o diário do apocalipse com caneta de fogo. Em Aracaju, ruas viraram rios, calçadas foram engolidas pelas águas e guarda-chuvas se transformaram em pássaros desesperados, voando para lugar nenhum.

Enquanto isso, o menino que atende pelo apelido poético de “Haaland do Sertão” — mistura de vaqueiro e artilheiro, cacto e cometa — escreveu seu nome na história com a ponta do pé. O Brasil venceu nos pênaltis o Sul-Americano Sub-17. O menino do mato bateu como se estivesse jogando no terreiro de casa, driblando a seca com cada gota de suor. O gol foi como chuva no semiárido: raro, precioso, celebrado como um milagre de chuteiras.

No mesmo compasso, o comércio de pescados em Aracaju prosperava como se Netuno tivesse aberto uma filial no mercado central. Peixe era ouro escamoso, e a tainha virou estrela de novela das oito. As vendas subiram como maré cheia, talvez impulsionadas pelas chuvas que afugentaram o churrasco e convidaram o caldo de sururu para a mesa.

Lá do outro lado do mundo, em Teerã, o Irã e os Estados Unidos resolveram, pelo menos por uns minutos, colocar o dedo no botão da conversa e não no da bomba. Entre ameaças de Trump e promessas do nada, o diálogo reapareceu com ares de “vamos ver no que dá”, como namoro antigo tentando reatar no WhatsApp. Paz? Talvez. Suspense? Com certeza. Diplomacia? Com muito filtro e pouca sinceridade.

E enquanto isso, em Pequim, o vento deu um golpe de estado no clima. Tempestades de areia, ventos de 148 km/h, voos cancelados, parques fechados — e um grito da natureza que parece ter se cansado de sussurrar. A China, sempre silenciosa em seus rituais milenares, se viu coberta por poeira, como se um tapete do deserto tivesse sido sacudido sobre a capital.

Por aqui, a Mega-Sena acumulou — porque esperança é o último boleto que a gente deixa de pagar. R$ 45 milhões estão à espera de um sortudo, que provavelmente continuará andando de ônibus por medo de chamar atenção ou de ser sequestrado pelo próprio CPF. As dezenas sorteadas pareciam uma senha de Wi-Fi divina: aleatória, distante e impenetrável.

E a gente? A gente segue caminhando entre enchentes e promessas, torcendo por meninos que chutam bolas e destinos, pescando sonhos no mercado, tentando decifrar as nuvens no Irã e as tempestades em Pequim. O Brasil é isso: um país onde a bola entra com emoção, o peixe sobe com fé, a água invade com raiva e o povo segue rindo — mesmo quando chora.

Porque viver por aqui é isso: um eterno pênalti em tempo de chuva, em campo alagado, com a torcida molhada e o juiz vendado. Mas ainda assim, chutamos. Sempre chutamos.