CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
E num sábado em que o céu parecia ter brigado com a terra, a chuva caiu com o peso de um coração cheio de mágoas. Trovões urraram como quem desabafa segredos antigos, e raios cortaram o céu sergipano como se estivessem assinando o diário do apocalipse com caneta de fogo. Em Aracaju, ruas viraram rios, calçadas foram engolidas pelas águas e guarda-chuvas se transformaram em pássaros desesperados, voando para lugar nenhum.
Enquanto isso, o menino que atende pelo apelido poético de “Haaland do Sertão” — mistura de vaqueiro e artilheiro, cacto e cometa — escreveu seu nome na história com a ponta do pé. O Brasil venceu nos pênaltis o Sul-Americano Sub-17. O menino do mato bateu como se estivesse jogando no terreiro de casa, driblando a seca com cada gota de suor. O gol foi como chuva no semiárido: raro, precioso, celebrado como um milagre de chuteiras.
No mesmo compasso, o comércio de pescados em Aracaju prosperava como se Netuno tivesse aberto uma filial no mercado central. Peixe era ouro escamoso, e a tainha virou estrela de novela das oito. As vendas subiram como maré cheia, talvez impulsionadas pelas chuvas que afugentaram o churrasco e convidaram o caldo de sururu para a mesa.
Lá do outro lado do mundo, em Teerã, o Irã e os Estados Unidos resolveram, pelo menos por uns minutos, colocar o dedo no botão da conversa e não no da bomba. Entre ameaças de Trump e promessas do nada, o diálogo reapareceu com ares de “vamos ver no que dá”, como namoro antigo tentando reatar no WhatsApp. Paz? Talvez. Suspense? Com certeza. Diplomacia? Com muito filtro e pouca sinceridade.
E enquanto isso, em Pequim, o vento deu um golpe de estado no clima. Tempestades de areia, ventos de 148 km/h, voos cancelados, parques fechados — e um grito da natureza que parece ter se cansado de sussurrar. A China, sempre silenciosa em seus rituais milenares, se viu coberta por poeira, como se um tapete do deserto tivesse sido sacudido sobre a capital.
Por aqui, a Mega-Sena acumulou — porque esperança é o último boleto que a gente deixa de pagar. R$ 45 milhões estão à espera de um sortudo, que provavelmente continuará andando de ônibus por medo de chamar atenção ou de ser sequestrado pelo próprio CPF. As dezenas sorteadas pareciam uma senha de Wi-Fi divina: aleatória, distante e impenetrável.
E a gente? A gente segue caminhando entre enchentes e promessas, torcendo por meninos que chutam bolas e destinos, pescando sonhos no mercado, tentando decifrar as nuvens no Irã e as tempestades em Pequim. O Brasil é isso: um país onde a bola entra com emoção, o peixe sobe com fé, a água invade com raiva e o povo segue rindo — mesmo quando chora.
Porque viver por aqui é isso: um eterno pênalti em tempo de chuva, em campo alagado, com a torcida molhada e o juiz vendado. Mas ainda assim, chutamos. Sempre chutamos.




