Crônica

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 11 de outubro de 2025

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 11 de outubro de 2025
Publicado em 12/10/2025 às 10:46

Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O sábado nasceu com cheiro de café e nervosismo em Aracaju. No ginásio, os estudantes se aglomeravam como formigas antes da chuva — cada um carregando uma esperança, um resumo e uma caneta que parecia espada de cavaleiro moderno. Era o aulão do Enem, o festival da ansiedade ilustrada. Professores viravam maestros de sonhos, e o quadro, um campo de batalha onde equações lutavam contra distrações e redações duelavam com o medo do branco mental.

Havia suor, brilho e uma sinfonia de marca-textos amarelos. De um lado, o verbo “acreditar” em tempo futuro; do outro, a realidade batendo à porta: “não esqueça o documento com foto!”. E ali, entre apostilas e suspiros, a juventude sergipana transformava o cansaço em combustível — porque, no fim, o Enem é mais que prova: é uma travessia de jangada no mar das oportunidades.


Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Lula embarcava para Roma — o homem que já conversou com sindicalistas, empresários e até a fome agora se prepara para dialogar com o Papa. A viagem parece roteiro de um evangelho moderno: o operário vai ao Vaticano para discutir os pecados do estômago vazio.

Na bagagem, talvez leve um punhado de promessas e um terço de intenções políticas. O Papa Francisco, esse argentino universal, deve recebê-lo com a paciência de quem já ouviu confissões mais longas que discursos de palanque. E, entre um “Ave Maria” e uma agenda social, talvez debatam o milagre de um mundo onde o pão ainda é luxo e o prato, às vezes, um sonho de porcelana vazia.

O Brasil ora, a Itália observa, e o mundo — esse confessionário global — pergunta: “é possível multiplicar políticas públicas como se multiplica o pão?”


Mas, se Roma rezava, Oslo tossia gás lacrimogêneo. Na Noruega, o protesto pela Palestina transformou o ar frio em brasa política. Centenas de torcedores, antes de um jogo de futebol, decidiram que o verdadeiro gol seria pela paz. Vestiram as cores da Palestina, gritaram contra o horror, e o gás respondeu com o mesmo velho argumento da força.

O estádio virou metáfora do planeta: de um lado, quem quer jogar; do outro, quem ainda luta pra existir. O apito inicial soou mais como um suspiro de decepção do que como convite à diversão. O mundo, esse velho campo enlameado de sangue e promessas, continua sem juiz que apite o fim da guerra.


E eu, cá de Japaratuba, observo tudo como quem folheia um jornal em forma de espelho. Vejo jovens correndo atrás de sonhos, um presidente atrás da bênção, e povos atrás da paz. Tudo se mistura como tinta na chuva — e o resultado é uma aquarela de contradições humanas.

O Enem revela o desejo.
Roma revela o discurso.
Oslo revela o desespero.