Crônica
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 11 de outubro de 2025
Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O sábado nasceu com cheiro de café e nervosismo em Aracaju. No ginásio, os estudantes se aglomeravam como formigas antes da chuva — cada um carregando uma esperança, um resumo e uma caneta que parecia espada de cavaleiro moderno. Era o aulão do Enem, o festival da ansiedade ilustrada. Professores viravam maestros de sonhos, e o quadro, um campo de batalha onde equações lutavam contra distrações e redações duelavam com o medo do branco mental.
Havia suor, brilho e uma sinfonia de marca-textos amarelos. De um lado, o verbo “acreditar” em tempo futuro; do outro, a realidade batendo à porta: “não esqueça o documento com foto!”. E ali, entre apostilas e suspiros, a juventude sergipana transformava o cansaço em combustível — porque, no fim, o Enem é mais que prova: é uma travessia de jangada no mar das oportunidades.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Lula embarcava para Roma — o homem que já conversou com sindicalistas, empresários e até a fome agora se prepara para dialogar com o Papa. A viagem parece roteiro de um evangelho moderno: o operário vai ao Vaticano para discutir os pecados do estômago vazio.
Na bagagem, talvez leve um punhado de promessas e um terço de intenções políticas. O Papa Francisco, esse argentino universal, deve recebê-lo com a paciência de quem já ouviu confissões mais longas que discursos de palanque. E, entre um “Ave Maria” e uma agenda social, talvez debatam o milagre de um mundo onde o pão ainda é luxo e o prato, às vezes, um sonho de porcelana vazia.
O Brasil ora, a Itália observa, e o mundo — esse confessionário global — pergunta: “é possível multiplicar políticas públicas como se multiplica o pão?”
Mas, se Roma rezava, Oslo tossia gás lacrimogêneo. Na Noruega, o protesto pela Palestina transformou o ar frio em brasa política. Centenas de torcedores, antes de um jogo de futebol, decidiram que o verdadeiro gol seria pela paz. Vestiram as cores da Palestina, gritaram contra o horror, e o gás respondeu com o mesmo velho argumento da força.
O estádio virou metáfora do planeta: de um lado, quem quer jogar; do outro, quem ainda luta pra existir. O apito inicial soou mais como um suspiro de decepção do que como convite à diversão. O mundo, esse velho campo enlameado de sangue e promessas, continua sem juiz que apite o fim da guerra.
E eu, cá de Japaratuba, observo tudo como quem folheia um jornal em forma de espelho. Vejo jovens correndo atrás de sonhos, um presidente atrás da bênção, e povos atrás da paz. Tudo se mistura como tinta na chuva — e o resultado é uma aquarela de contradições humanas.
O Enem revela o desejo.
Roma revela o discurso.
Oslo revela o desespero.




