CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 10 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
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Na alvorada do dia 10 de abril, o Brasil acordou com o despertador da realidade tocando em volume máximo, mas, como de costume, muita gente apertou o botão de soneca. Enquanto isso, a vida — essa senhora de chinelo gasto e olhar cansado — continuou seu percurso entre ônibus velhos proibidos, milagres digitais e passaportes dourados.
Em Aracaju, os ônibus com mais de 12 anos foram proibidos de circular. Era como se a cidade dissesse aos veículos: “Queridos, vocês envelheceram mal. Saem de cena, por favor”. A frota da Viação Progresso, que de progresso só tinha o nome, foi varrida como poeira sob o tapete da renovação. Mas os trabalhadores, aqueles que empurraram essa engrenagem enferrujada com suor e cansaço, ficaram à deriva na estrada da indiferença. Protestaram, mas parece que buzina de ex-funcionário não fura o tímpano dos engravatados da decisão. O progresso, por aqui, costuma deixar seus passageiros na calçada, com a dignidade esperando o próximo coletivo — que talvez nem venha.
Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal resolveu sentar à mesa para julgar o prato quente da saúde. No menu, a cobertura dos planos que não cobrem. O povo, esse cliente faminto por dignidade, espera que sobrem migalhas de justiça nos votos frios que só sairão… numa data ainda a ser marcada. Afinal, o tempo do povo é cronômetro de dor; o tempo da toga é relógio suíço de cerimônias.
E como a infância virou produto digital, o Ministério da Justiça anunciou um aplicativo para proteger os olhos das crianças da selva virtual. Uma boa intenção que, como de costume, parece receita de bolo sem fermento. Querem filtrar o TikTok, o Instagram, o Youtube — mas esquecem que o pior conteúdo às vezes vem da tela dos próprios adultos. Aplicativo não educa. Aplicativo bloqueia. E há muito mais para se cuidar do que um filtro parental: há o exemplo dos pais, a escuta dos professores e o abraço da escola.
O STF, em outra esquina do dia, também decidiu manter de pé o acordo da tragédia de Mariana, aquela lama que não seca no coração do Brasil. Negaram recursos de quem não tinha assento à mesa do acordo — e o povo atingido continua comendo poeira, agora jurídica. A justiça foi feita, disseram. Mas quem perdeu casa e história ainda procura justiça de verdade, aquela que não se escreve só em sentenças, mas se desenha em reconstrução.
No cassino digital do país, o governo decidiu chamar os bancos para vigiar a mesa de apostas. Fechou sites, bloqueou perfis e mandou os bancos entregarem os apostadores clandestinos. A sorte virou suspeita. O blefe agora tem CPF. Enquanto isso, uma quadrilha digital fez um estrago de 6 milhões, invadindo sistemas como hackers famintos por cliques e cifrões. O faroeste virtual segue em alta, com bandidos de teclado e xerifes de decreto.
Nos Estados Unidos de Trump, a cidadania virou brinde de luxo. Basta 5 milhões de dólares e pronto: você não entra apenas no país, entra no clube. O “gold card” é o tapete vermelho da desigualdade: quem pode, compra; quem não pode, assiste. A Estátua da Liberdade, coitada, deve estar chorando petróleo com essa privatização da esperança.
E enquanto o mundo gira entre dólares e desastres, o céu parece ter baixado a última atualização. Carlo Acutis, o jovem padroeiro da internet, será canonizado no fim do mês. Um milagre digital aprovado, um santo de tênis e wi-fi forte. Mas até os milagres viraram produto: já estão vendendo relíquias do rapaz online, porque neste mundo de likes e lucros, nem a santidade escapa da mercantilização.
Entre ônibus aposentados, julgamentos adiados, aplicativos educadores, lamas eternas, apostas duvidosas, cidadanias vendidas e santos internéticos… ainda há amor. Ainda há esperança. E enquanto houver metáforas, haverá resistência.
Amém. E que Deus salve o Brasil — de preferência com um aplicativo gratuito e sem anúncios.




