CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia 9 de setembro nasceu como quem tropeça em buracos no passeio público: cambaleante, irregular, cheio de armadilhas disfarçadas de normalidade. O Ministério Público, em tom professoral, levantou o dedo e disse: “Calçada não é balcão de pastel nem vitrine improvisada de boteco”. Ah, as calçadas de Aracaju, que já foram o palco das primeiras paqueras e corridas de bicicleta, agora viraram corredores de guerra entre pedestres e cadeiras de plástico. É o velho samba do improviso urbano: a rua é do carro, a calçada do comércio e o pedestre, coitado, que vire trapezista de circo para não cair no asfalto.
Enquanto o MPSE tenta ensinar lições de urbanidade, Alexandre de Moraes abriu o compêndio da Justiça com um “voto demolidor”. Demolidor mesmo, como se fosse um Hércules togado, quebrando colunas de ignorância a marteladas de jurisprudência. E Dino, com sua voz de quem já mastigou Constituições no café da manhã, veio avisar: “anistia, meus caros, não cabe nem em sonho de golpista”. Mas no Brasil, sonho de golpista é que nem barata em esgoto: quanto mais se pisa, mais aparecem com as antenas em riste.
Do outro lado do mundo, no Nepal, a juventude resolveu mostrar que não aceita ser figurante no teatro da desigualdade. A chamada “Geração Z” incendiou ministérios, palácios e até a paciência dos governantes. Foi a faísca de uma rede social bloqueada que ateou fogo às ruas — como se desligar o wi-fi fosse arrancar o último suspiro de liberdade. Políticos ostentavam mansões, enquanto os jovens, sem teto e sem futuro, gritavam com pedras e celulares. O saldo: 19 mortos e uma pergunta que ecoa nos becos de Katmandu e também nas ladeiras de Aracaju — até quando a ostentação de uns vai ser construída no esqueleto da miséria de outros?
Sinto, às vezes, que vivemos todos numa mesma calçada estreita: o pedestre desvia da cadeira, o estudante desvia do futuro, o cidadão desvia da corrupção. É a coreografia grotesca da sociedade, dançando com passos forçados em um tablado cheio de rachaduras.
E se as notícias fossem um espelho, hoje ele refletiria um mosaico de metáforas: calçadas pedindo respeito, juízes erguendo espadas de palavras e jovens queimando muros de silêncio. No fundo, todos pedindo a mesma coisa: espaço para caminhar — seja na rua, na democracia ou na vida.
Que o dia 9 de setembro fique registrado como a crônica das calçadas e das ruas em chamas, lembrando-nos que o espaço público é mais do que cimento e tijolo: é o chão simbólico da nossa cidadania. E se não aprendermos a caminhar juntos, corremos o risco de transformar o mundo inteiro em um imenso “passeio irregular”, onde ninguém, absolutamente ninguém, consegue chegar a lugar nenhum.




