CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 08 de novembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 08 de novembro de 2025
Publicado em 09/11/2025 às 9:17

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O sábado de 8 de novembro amanheceu com cheiro de café coado e saudade aquecida. Em Japaratuba, os amigos da Missão se reencontraram — e o tempo, vaidoso, se arrumou todo pra assistir. Velhos companheiros se abraçaram como se o passado tivesse tirado férias e voltado com malas cheias de risadas. As conversas dançavam no ar, leves como música de coral em missa de domingo, e o coração da cidade batia no compasso da amizade reencontrada.

Enquanto isso, em Aracaju, o Festival Nacional de Corais transformava o centro em um palco de vozes e sonhos. Era o Brasil afinando a alma. As notas flutuavam pelas ruas como borboletas sonoras, lembrando que ainda há harmonia num país desafinado por tantas dissonâncias políticas. Cada coral era um protesto melódico contra o barulho da indiferença. Ah, se o Congresso tivesse metade da afinação do coral infantil de Aracaju, talvez até a esperança cantasse em tom maior.

Mas nem só de música se faz um sábado. No Paraná, a natureza com o grito solto em forma de tornado no dia 07 mostra as consequências, lembra aos homens que brincar de Deus tem seu preço. O vento, esse poeta furioso, riscou o chão com versos de destruição. Casas voaram, vidas se partiram, e o céu chorou. O governo correu atrás das folhas do desastre — reconheceu a calamidade. Cinco mortos, seiscentos feridos e uma multidão de corações desalojados. O Brasil, esse país de contrastes, ora canta em coral, ora geme em lamento.

Enquanto uns recolhiam escombros, outros recolhiam alimentos. A 20ª edição do Dia Nacional da Coleta fez da solidariedade o pão do dia. Um gesto simples, mas milagroso, como se cada quilo de arroz carregasse um pedaço de fé. Em tempos de egoísmo em alta e empatia parcelada, doar é quase um ato revolucionário.

Falando em parcelamento, o Banco Central resolveu brincar de inventor e comentou a respeito das regras do PIX parcelado. A promessa é linda: democratizar o crédito, dar poder a quem só tinha boleto. Mas o BC, cuidadoso como padre em confissão, teme o pecado do “rotativo”. Quer evitar o empilhamento de dívidas — essa Torre de Babel financeira onde o pobre sempre fala em silêncio e o rico traduz o caos em dividendos. O “PIX parcelado” soa bonito, mas o povo já aprendeu: no Brasil, até milagre vem com taxa de juros embutida.

E enquanto o Brasil divide a conta, o mundo divide o sofrimento. No Sudão, a guerra não canta, não chora — urra. El Fasher, último respiro da esperança em Darfur, foi tomada pelos rebeldes. Milhares fogem para campos que já não cabem mais sonhos. As crianças, órfãs do futuro, aprendem cedo que o silêncio é mais seguro que o grito. A humanidade, esta senhora cansada, parece ter perdido o endereço da compaixão.

Mas voltemos a Japaratuba — onde amigos se reencontram e a vida insiste em sorrir. Talvez o segredo esteja aí: enquanto o mundo desaba, ainda há quem celebre, abrace, cante, doe e sonhe. Porque mesmo em meio ao tornado da existência, a amizade é o abrigo que o vento não leva.

E assim termina o sábado: o coral canta, o PIX parcela, o vento destrói, o povo doa, o mundo foge — e Japaratuba, serena, lembra que a vida é breve, mas o amor, esse sim, é à vista e sem juros.