CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 07 de abril de 2025
Uma segunda-Feira de Manchetes quentes
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na manhã de 7 de abril, o Brasil acordou com cheiro de bacalhau na brisa e gosto de ironia no café. A Semana Santa bate à porta com o pão da esperança numa mão e a fatura da ceia na outra. Os ovos de Páscoa, mais caros que a passagem pra Jerusalém, desfilam nas prateleiras como se fossem joias de cacau em vitrines sagradas. O Garoto Batom virou item de colecionador, e o vinho Quinta do Morgado – ah, esse sim – parece ter envelhecido no barril da especulação.
Enquanto o Procon joga água benta na fogueira dos preços, a mesa do povo se equilibra entre o milagre da multiplicação dos salários e o jejum forçado da inflação. A tainha flutua nas águas turvas da economia e o bacalhau virou artigo de luxo – daqueles que você olha, cheira, mas não ousa comprar. O verdadeiro milagre não está na ressurreição, mas em pagar R$ 85,90 num ovo de chocolate e ainda sorrir para a selfie de Páscoa.
Mas nem só de peixe vive o sergipano. Em Lagarto, o Hospital Universitário vai ganhar uma chuva de R$ 37 milhões – uma bênção de cifras que cai dos céus orçamentários. Dizem que virão 520 procedimentos, e até uma porta aberta para emergências, como se até agora o povo entrasse pela janela ou pela misericórdia. Enquanto isso, no Hospital de Urgências de Sergipe, os aparelhos fazem jejum de funcionamento, e os pacientes, de esperança. Falta tudo, até paciência.
No teatro global da comédia trágica, a Apple tropeça na maçã do Éden comercial. Trump, o jardineiro do caos, plantou tarifas e colheu tombos: a maçã desvalorizou em 104 bilhões de dólares. Um pecado original com cotação em Wall Street. O dólar subiu ao céu dos R$ 5,91 como um Cristo cambial ressuscitando ao terceiro dia. E o Ibovespa, pobre cordeiro sacrificial, foi abatido sem dó no altar da Bolsa.
O cenário é de guerra comercial, e o Brasil assiste da plateia VIP, com o real tremendo nas mãos suadas do mercado. Entre um embargo e outro, o governo federal tenta segurar o celular alheio no bolso certo. O programa Celular Seguro virou cão farejador digital: rastreia aparelhos, revela quadrilhas, e mostra que no Brasil, até o celular é andarilho. Roubado em Sergipe, encontrado no Pará. Furtado no Rio, dando sinal no Amapá. Nosso mapa é um tabuleiro de esconde-esconde eletrônico.
E enquanto celulares voam pelo país, na Argentina, Milei tentou nomear um juiz por decreto, como quem tira o coelho da cartola num circo libertário. Mas o Senado, que não gosta de ser figurante, bateu o martelo – ou melhor, o tambor do “não vai rolar”. O juiz nomeado saiu de fininho, sem toga e sem glória, como um personagem que entrou na novela sem texto nem audiência.
No fim do dia, resta-nos refletir: qual será o real milagre da Páscoa? Será curar o SUS ou ressuscitar a ética? Fazer o peixe caber no bolso ou tirar o dólar das alturas? Sermos menos reféns do mercado e mais senhores da mesa? Talvez o verdadeiro Cristo do século XXI seja o consumidor que resiste: que, mesmo com o salário crucificado, tenta celebrar a vida, o amor e o vinho barato.
Mas cuidado! Em tempos de tarifaço, até o coelhinho da Páscoa pode ser taxado na alfândega celestial.
E nesse Brasil que parece novela mexicana, com roteiros escritos por economistas, juízes improvisados e políticos de teatro, a gente segue. Rindo pra não chorar. Amando pra não odiar. Escrevendo pra não esquecer.
Porque aqui, meu caro leitor, até chocolate tem metáfora. E peixe caro é só mais um espinho engasgado na garganta de um povo que insiste em ter fé.
Para nos ajudar só Jesus que morreu por todos nós e ressuscitou .




