CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 06 de maio de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na calçada da história, o tempo andou tropeçando em si mesmo neste 6 de maio. Uma terça-feira com gosto de segunda mal passada, embalada ao som de sirenes, martelos da Justiça e despedidas em tom menor.
Comecemos pelo fogo:
Em Aracaju, uma oficina virou forno. As chamas dançaram como bailarinas ensandecidas, com vestidos de fuligem e passos de destruição. O incêndio não pediu licença, não carimbou ponto, não apresentou CPF. Apenas chegou, e como todo fogo desgovernado, queimou mais que lata — queimou memórias, ferramentas, o sustento de famílias, talvez até esperanças estacionadas num canto do pátio.
Mas enquanto o fogo se espalhava pela oficina, outra queima acontecia nos bolsos do povo. O Copom, com mãos de tesoura e alma de usurário, elevou os juros para quase 14,75%. É o Brasil de sempre, onde o pobre paga o pato, a fatura e o parcelamento. No palco econômico, o Banco Central ensaia uma dança de cadeiras, mas quem sempre fica em pé é o trabalhador.
Já nos ônibus de Aracaju, um novo capítulo da epopeia urbana: as catracas duplas — aquelas gêmeas siamesas que barram, humilham e atrasam a vida — foram mandadas para o limbo judicial. A Justiça, em gesto raro de sensatez, decidiu que o cidadão não é boi para ser contado em curral. Uma vitória que parece pequena, mas que tem gosto de liberdade em forma de roleta vencida.
Enquanto isso, Sergipe se despedia de um farol: Raymundo Luiz, o homem que transformava microfones em varinhas mágicas e palavras em pontes. Jornalista, escritor, radialista, esportista e cronista da vida alheia com um ouvido na notícia e o coração no povo. Morreu aos 95, deixando cinco filhos e mil histórias. Partiu, mas ficou: na memória, no som das ondas do rádio, na tinta que não seca das palavras que escreveu.
Em Brasília, entre um cafezinho e uma medida provisória, Lula deu aval para ampliar a tarifa social de energia. Sim, é verdade. Pela primeira vez em muito tempo, uma luz no fim do túnel não é trem — é gratuidade na conta de luz. Quatorze milhões de brasileiros vão deixar de pagar o fio que os liga à esperança. Já os outros milhões, por enquanto, ganham só um desconto, porque o Brasil sempre anda em parcelas, inclusive na dignidade.
Mas se o Brasil tenta ligar a luz da cidadania, do outro lado do mundo, na Caxemira, o céu foi apagado por mísseis. Índia e Paquistão, eternos gladiadores nucleares, voltaram a medir seus ódios com brinquedos mortais. Oito vidas perdidas, uma delas de criança, em nome de uma retaliação que não cura, só perpetua o ciclo de dor. Lá, a geopolítica é feita de pólvora e orgulho ferido, e cada morte é apenas estatística nos noticiários internacionais — mas tragédia eterna no coração das famílias.
E assim foi o 6 de maio:
Um dia em que o fogo queimou oficina e juros, a Justiça tentou girar a roda ao contrário, um cronista se despediu do mundo deixando mais do que palavras, e a guerra — essa senhora teimosa — continuou colhendo crianças como se fossem folhas secas no outono da humanidade.
A vida, meus caros, é essa crônica de contrastes. Entre a lágrima e o alívio, entre a perda e o protesto, entre o adeus e o ainda-não. E nós, cronistas do cotidiano, seguimos anotando as batidas do coração do mundo — mesmo quando ele parece ter entrado em arritmia.




