CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de janeiro de 2026
Publicado em 08/01/2026 às 1:46

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 05 de janeiro amanheceu tropeçando em si mesmo. A cidade abriu os olhos ainda bocejando e, antes mesmo do café esfriar, um carro resolveu abraçar um poste em Aracaju, num romance relâmpago, desses sem pedido de namoro nem final feliz. O poste, imóvel como a consciência de certos poderosos, venceu a disputa. O trânsito, coitado, ficou em coma induzido, respirando por aparelhos de paciência enquanto motoristas compunham sinfonias de buzinas em dó maior de desespero.

A rua virou teatro. O asfalto, palco. O carro, ator dramático. O poste, crítico severo. E a cidade inteira, plateia obrigada, assistindo àquela ópera urbana em que o final já era conhecido: atraso, calor, xingamentos criativos e a sensação de que o caos sempre chega mais cedo que a gente.

Enquanto isso, longe do poste, mas perto do absurdo, o silêncio virou caso de polícia. Sim, senhoras e senhores: o barulho de um ar-condicionado ganhou status de vilão nacional. Após queixas solenes, quase líricas, Alexandre de Moraes acionou a Polícia Federal para investigar o ruído que incomoda o repouso de Bolsonaro. O Brasil, esse país que convive com fome, enchentes, desemprego e filas infinitas, agora precisa garantir que o vento gelado sopre com delicadeza monástica.

O ar-condicionado, personificado, tremeu. Nunca antes um eletrodoméstico foi tão pressionado a respeitar o direito ao silêncio absoluto. O aparelho, que só queria trabalhar honestamente, virou suspeito. O barulho virou ameaça institucional. O descanso virou pauta de Estado. E o povo, do lado de fora, sem ar, sem sombra e sem silêncio, aprendeu que há ruídos que incomodam mais quando vêm de baixo.

Mas o mundo não parou no poste nem no ar-condicionado. Na Venezuela, o céu virou alvo. Drones — esses insetos tecnológicos com vocação para paranoia — sobrevoaram o palácio presidencial. O ar, assustado, estremeceu. As forças de segurança atiraram contra o invisível, como quem tenta acertar um pensamento ruim antes que ele vire ideia fixa. Ninguém sabe de onde vieram os drones, mas os disparos ecoaram nas redes sociais, onde o medo sempre chega com filtro e legenda.

O céu, que deveria ser azul e distraído, virou território de suspeita. As nuvens ficaram nervosas. Os pássaros pediram licença. E a tecnologia, essa criança travessa, mais uma vez brincou de guerra enquanto os adultos discutiam soberania com o dedo no gatilho.

Assim foi o dia:
um carro beijando um poste,
um ar-condicionado ameaçando a paz mundial,
drones desafiando o céu venezuelano,
— e nós, humanos, tentando entender se o absurdo ainda é exceção ou se já virou regra gramatical da realidade.

O mundo anda barulhento quando convém e silencioso quando deveria gritar. O trânsito trava, o poder reclama, o céu dispara e a vida segue, tropeçando, suando, rangendo — feito ar-condicionado velho em prédio mal-cuidado.

E assim fechou-se o dia 05 de janeiro de 2026:
com cheiro de borracha queimada,
vento gelado de privilégio,
pólvora no ar
e a certeza poética de que, neste país, até o poste trabalha mais firme que muita gente.