CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de Agosto de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na alvorada do dia 05 de agosto, o Brasil despertou com a leveza de um elefante numa loja de cristais. O sol ainda bocejava atrás dos morros, mas as manchetes já desfilavam nuas e cruas, como verdades inconvenientes na passarela do absurdo.
Em Itabaianinha, cidade de nome poético mas de cena trágica, uma festa virou ringue, um forró virou UFC. No lugar do baião, murros. No lugar do xote, pontapés. O que deveria ser alegria se transfigurou em espancamento — e a cidade, que carrega diminutivo no nome, revelou o tamanho gigante da violência que insiste em vestir suas botas de couro e dançar sobre os direitos humanos. A polícia, essa eterna detetive de tragédias anunciadas, agora corre atrás das imagens, como quem procura agulha num palheiro de socos.
E, como se a pauta do dia já não estivesse temperada com pimenta malagueta, lá no Congresso Nacional o espetáculo foi outro: um circo sem palhaço, um teatro sem ensaio, uma performance digna de novela mexicana dublada em português de Portugal. Os parlamentares da oposição, em protesto contra a prisão domiciliar de Bolsonaro, ocuparam mesas e colaram esparadrapos na boca — uma alegoria tragicômica que misturava drama, vaudeville e pastelão. Uma coreografia de silêncio forçado, onde cada fita adesiva parecia gritar: “Olhem para mim, estou calado, mas sou mártir!”
Não houve sessão. Não houve debate. Houve cena.
O Congresso virou palco de um teatro grego às avessas, com máscaras de tragédia e nenhum roteiro plausível. É o Brasil performático, onde a política é samba-enredo sem desfile, é discurso com reticências no lugar de ideias. Cada deputado, um ator à espera de aplausos de uma claque imaginária. Enquanto isso, o povo — o verdadeiro protagonista — assistia da arquibancada do desalento, pagando o ingresso com suor, boletos e promessas não cumpridas.
Mas não paramos por aí, pois lá das bandas do império norte-americano veio a cereja do bolo amargo: o governo dos EUA resolveu cortar o financiamento de vacinas de RNA mensageiro. Sim, senhoras e senhores, em pleno século XXI, com o vírus ainda dançando valsa nos pulmões dos descuidados, a terra da liberdade decidiu puxar o tapete da ciência.
Vinte e dois projetos — vinte e duas esperanças — foram podados como flores antes da primavera.
Parece que o futuro, por lá, entrou em quarentena… sem previsão de alta.
Enquanto isso, no Brasil da saudade, o povo ainda lembra da fila da vacina como quem recorda o primeiro beijo: com emoção, com medo, com desejo de viver. E agora, assistimos ao retrocesso com os olhos marejados de impotência, como crianças vendo seu castelo de areia ruir diante da primeira onda.
O dia 05 de agosto não foi apenas um calendário riscado. Foi uma ode à contradição, um poema torto escrito com sangue, fita adesiva e cortes de verba. Foi um grito abafado, uma dança interrompida, uma esperança suspensa por um fio de esparadrapo.
Itabaianinha chorou na calçada. O Congresso silenciou com barulho. E os laboratórios de RNA calaram-se ao som do dólar.
Mas o povo — ah, o povo! — segue em cena.
Mesmo sem script, mesmo sem aplausos, mesmo sem anestesia.
Porque a vida continua, e o Brasil, esse poeta trôpego, ainda rima dor com humor.
Que venham os próximos atos.
Mas que ao menos, nos deem direito a um intervalo com café e consciência.




