CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de abril de 2025
Publicado em 06/04/2025 às 15:30

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


O sábado chegou trajado de luto e contradição. Enquanto alguns tentavam pintar o dia com as cores da esperança, a tinta da violência escorria pelos becos do país como lágrimas de uma pátria que, mesmo de olhos vendados, ainda consegue chorar.

Vanessa, com vassoura em mãos e sonhos no peito, varria as ruas tentando limpar o que o sistema insiste em sujar. Mãe de dois anjos ainda pequenos, ela não imaginava que o lixo da violência urbana era inflamável. Morreu por um estopim aceso no gatilho de um policial aposentado – aposentado das fardas, mas não da arrogância. A bala que levou seu corpo também alvejou um bairro inteiro, silenciando tambores, ecoando soluços e gritos engasgados.

No mesmo compasso de tragédia, Japaratuba chorou outro filho. Júnior, garoto de alma ligeira, foi atingido não pela Lei, mas por seu desvio. Fugiu do medo como se foge da multa, da apreensão, da vida dura. E foi premiado com um disparo pelas costas – símbolo da justiça que prefere atirar antes de dialogar. A farda, que deveria proteger, virou capa de super-heróis que nunca passaram pelo roteiro da empatia.

Os jornais noticiaram, com a frieza dos números e a secura das manchetes. Mas os corações que ainda batem por humanidade sentiram o sangue ferver e o peito murchar. São mortes que não cabem nas estatísticas, pois transbordam em dor, em revolta e em uma pergunta: quem cuida de quem deveria cuidar?

E no meio desse cenário fúnebre, alguns motoristas de ônibus em Aracaju começaram a transição para uma nova empresa. Talvez seja essa a metáfora do dia: enquanto uns embarcam em novos caminhos, outros são arrancados das estradas da vida antes da próxima parada. É a vida em tempos de buzina e bala, de progresso que não chega à periferia.

Do lado político da esquina, uma pesquisa Datafolha sussurrou esperança para uns e calafrios para outros: Lula venceria Bolsonaro se as urnas resolvessem abrir os olhos hoje. Um retrato do Brasil que ainda tateia entre a saudade de um passado idealizado e o medo de um presente encapuzado.

Enquanto isso, a Prefeitura de Aracaju convoca mais de 250 profissionais da saúde. Que sejam mais que números num edital; que sejam mãos e corações a curar feridas que não saem em exames – como o trauma de ver um ente querido partir porque o Estado decidiu que a morte era mais prática que o diálogo.

E nos Estados Unidos, milhares tomam as ruas contra Donald Trump. O velho enredo de um país que prega liberdade e pratica exclusão. O povo americano, às vezes, grita pelo que nós aqui sussurramos – ou engolimos com medo. Talvez sejamos irmãos de dores, filhos de democracias em coma induzido.

Ah, Brasil… teu nome deveria ser metáfora. Porque és uma poesia incompleta, um samba desafinado, uma república com as pernas bambas e os olhos marejados. Mas mesmo assim, resistimos. Porque ainda há quem escreva, quem chore, quem ame, quem lute.

E enquanto houver um único coração pulsando contra a injustiça, haverá crônicas. E enquanto houver crônicas, haverá memória. E onde houver memória, as balas não vencerão.