CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 04 de outubro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
04 de outubro de 2025
Era o dia de São Francisco, o santo que conversava com os passarinhos e abraçava lobos amansados — e, em Aracaju, até os vira-latas resolveram confessar seus pecados diante da bênção dos humanos. No Santuário São Judas Tadeu, havia fila de poodles arrependidos, gatos meditativos e papagaios que prometiam não xingar mais o carteiro. Era o zoológico da fé, a missa dos miados, o sermão dos latidos. E lá estava o padre, aspergindo água benta nos fiéis de quatro patas — cada gota um pedido de paz no mundo onde os humanos ainda insistem em morder uns aos outros com o veneno da intolerância.
Mas nem a bênção dos animais conseguiu purificar a alma das manchetes.
Enquanto São Francisco sussurrava à brisa, o Ministério da Saúde corria para comprar 2,5 mil tratamentos contra ingestão de metanol. Parece que a humanidade decidiu brindar o apocalipse com coquetel adulterado. O metanol, esse demônio líquido, anda disfarçado em garrafas que prometem alegria e entregam cegueira. Ah, Brasil! País onde até o gole de celebração pode ser veneno, onde a ressaca não vem do álcool, mas da realidade.
E, do outro lado do mundo, Trump — o eterno reality show ambulante — tentava brincar de comandante de quartel, enviando sua Guarda Nacional como quem joga soldados num tabuleiro de xadrez manchado de petróleo e vaidade. A juíza, sensata como uma professora em sala de aula cheia de valentões, disse: “Não, senhor, aqui não!”. Mas, como todo aluno teimoso, ele achou outra cidade para espalhar sua autoridade: Chicago virou palco da tragédia, com uma mulher baleada e a democracia ferida de raspão. A cada bala, uma vírgula sangrenta na história americana.
Enquanto isso, lá na Europa, a Rússia disparava mísseis contra trens na Ucrânia, atingindo não só vagões e trilhos, mas também esperanças. O som das explosões ecoava como tambores da insanidade humana, lembrando ao planeta que a guerra é uma locomotiva desgovernada, sem freio, sem maquinista e sem destino.
O mundo gira, mas parece rodopiar num carrossel enferrujado.
E nós, espectadores desse circo global, ainda acreditamos nas bênçãos — das águas, dos santos e, quem sabe, dos cachorros. Porque, se o homem perdeu o instinto de cuidar, talvez o cão nos ensine novamente a lealdade.
Em Aracaju, o latido dos abençoados soava como um pedido de perdão coletivo. No Congresso, o barulho é outro: rosnados travestidos de discursos. No mundo, os foguetes substituem orações. Mas, no coração do povo simples, ainda há um canto — talvez desafinado, talvez tímido — que pede paz, um pouco de juízo e um gole de esperança (sem metanol, por favor).
E, enquanto São Francisco acariciava o vento, o planeta seguia cambaleando entre o sagrado e o insano, entre o altar e o arsenal.
Talvez o milagre do dia não esteja nas bênçãos, mas na persistência dos que ainda acreditam que é possível plantar flores num terreno bombardeado. Que é possível abençoar o mundo, mesmo quando o mundo late de raiva.




