CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 04 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 04 de abril de 2025
Publicado em 05/04/2025 às 21:31

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

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Era uma sexta-feira como qualquer outra, dessas em que o café da manhã ainda carrega o gosto amargo das manchetes. E, como em toda sexta que se preze, o noticiário amanheceu com as chagas abertas da realidade, clamando por curativos de metáforas, benzedeiras de poesia e um bocado de ironia bem temperada.

Na pacata Pirambu — terra de peixes, promessas e procissões — uma santa foi quebrada. Não uma qualquer: Nossa Senhora de Lourdes, aquela que intercede pelas dores do corpo e da alma, foi ferida enquanto dormia sob o céu de estrelas apagadas e postes intermitentes. Não foi trovão divino, nem terremoto da fé. Foi mão humana, desgovernada, que quebrou o que era sagrado. E, veja bem, quando a pedra é lançada contra a fé do povo, não é só a escultura que trinca — é o coração da comunidade que estilhaça em mil pedaços.

A polícia chegou tarde, como os pedidos de desculpa que não remendam mais o erro. O autor sumiu nas esquinas da impunidade, protegido pelo manto da escuridão e pela ausência de câmeras e caráter. Mas o rastro ficou: um altar vazio, uma indignação silenciosa, e o povo olhando para o céu, perguntando se até os santos estão sem proteção nesse país onde o crime é sempre mais ágil que a justiça.

E enquanto uma santa chorava em silêncio no chão de Pirambu, lá em Brasília, o governo acendia uma vela para os sem-teto. Lula, num gesto de pão multiplicado, estendeu o ‘Minha Casa, Minha Vida’ para quem ganha até R$ 12 mil. Eis que o barraco virou sonho de cobertura, e a classe média finalmente foi reconhecida como carente — de teto, de crédito, e de esperança. O povo, antes excluído do sorteio, agora entra na fila com mais fé do que nunca. Afinal, no Brasil, o “meu lar” ainda é uma loteria com prêmios escassos e juros altos.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, um venezuelano fez o que muitos políticos jamais fariam: ofereceu um pedaço de si. José Gregorio González, preso por não ter documentos, foi libertado por ter algo ainda mais valioso — um rim e um coração disposto a salvar o irmão doente. Uma história que mistura realismo mágico com drama judicial: libertaram o homem não pela sua liberdade, mas pela sua utilidade.

Ah, mundo estranho… Onde se prende quem ama e se solta quem rouba; onde a caridade vale menos que um carimbo, e a esperança, essa eterna imigrante, vive em risco de deportação.

Vivemos num tempo em que santos são quebrados, casas são prometidas em carnês e rins viram passaporte. É o século XXI, onde os milagres acontecem nos tribunais, os mártires nas manchetes, e os poetas se escondem atrás dos boletins de ocorrência.

Mas ainda assim, resistimos. Com metáforas nas mãos, ironia nos olhos e poesia nos bolsos, seguimos plantando esperança no asfalto quente das cidades. Porque mesmo quando quebram nossas santas, há sempre um povo que junta os cacos e reza mais forte.

E quem sabe, num desses dias, o milagre venha.
Não na forma de um castelo no céu, mas de uma casa com telhado, uma imagem restaurada, um rim doado e um futuro sem grades.

Amém.