CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 03 de julho de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na manhã de 3 de julho, o mundo acordou com o coração pendurado num varal de emoções rasgadas, secando entre os ventos do absurdo e os pingos de lágrimas não combinadas com o céu. Foi um dia de notícias com gosto de fel, poesia amarga e ironia estampada na fatura da conta de luz — que, aliás, segue mais cara do que promessa de político em véspera de eleição.
Comecemos com o palco sergipano, onde a Justiça precisou se vestir de professora para ensinar ao governo estadual uma lição básica: não se substitui o que ainda nem foi resolvido. Como num teatro de vaidades mal encenado, os contratados por PSS — que carregam a saúde pública nas costas suadas — seriam trocados por fantasmas de um concurso que sequer abriu as cortinas. Mas o juiz entrou em cena com a caneta afiada e gritou: “Corta!”. E por ora, a saúde de Sergipe respira, mesmo que ainda sem UTI moral.
Enquanto isso, quase 4 mil pensionistas invadiram as agências dos Correios. Não para postar cartas de amor ou cartões de saudade, mas para descobrir se o rombo no contracheque era real ou apenas pesadelo. O INSS, esse ilusionista institucional, às vezes faz mágica de desaparecimento de dinheiro sem precisar de cartola. E o truque mais aplaudido é o desconto indevido: aparece do nada e some com tudo.
Mas o dia também nos golpeou com duas facadas no peito da emoção. Uma delas cruzou o Atlântico e perfurou o coração do futebol: Diogo Jota, atacante do Liverpool, e seu irmão André Silva, também jogador, se despediram da vida em um trágico acidente de carro na Espanha. A bola parou. O estádio silenciou. O grito de gol virou lamento. Não há metáfora que abrace uma mãe enlutada, nem trocadilho que conforte um povo órfão de seus ídolos. A estrada, que deveria levar ao futuro, virou atalho para o fim.
Mais próximo de nós, em Japaratuba, despediu-se Cassinha — Maria de Souza Almeida França. Uma daquelas figuras que não se mede por CPF, mas por carinho. Deixou o silêncio em Japaratuba, a saudade no vento e um rastro de simpatia que nem a morte ousa apagar. A cidade parou. O tempo sentou na praça e chorou.
E se não bastasse o enredo trágico, a Aneel resolveu aparecer como vilã de novela mexicana, defendendo a proposta de cortar subsídios e “ajustar” — lê-se aumentar — a conta de luz. Dizem que é para trazer mais transparência, mas a gente sabe que no Brasil, transparência rima com “pague mais e reclame menos”. A luz, que já era cara, agora ameaça virar artigo de luxo. Vai chegar o tempo em que a gente vai acender uma vela e agradecer não só a São Jorge, mas também ao desconto que não veio.
E, num canto do mundo onde a natureza resolveu dar o troco, uma elefanta — sim, uma elefanta! — matou duas turistas durante um safári. O animal, talvez cansado de ser enfeite de cartão-postal, mostrou que a selva tem regras, e que nem tudo é entretenimento para humanos. A tragédia ocorreu no coração da Zâmbia, mas a reflexão bate aqui: até quando vamos invadir espaços e chamar isso de turismo?
No fim do dia, as notícias não cabiam num jornal. Eram muitas. E cada uma era como um copo d’água transbordando numa barragem de emoções. Teve justiça que ensina, saudade que corta, golpe no bolso, tristeza no esporte e o grito da natureza em forma de tromba.
No meio disso tudo, seguimos nós, humanos em busca de sentido. Tentando decifrar os enigmas da existência, entre agências lotadas, contas impagáveis, partidas precoces e saudades eternas. Como se a vida fosse uma redação do ENEM com tema surpresa: “Como sobreviver num mundo que insiste em doer?”
E eu aqui, cronista de um tempo meio torto, escrevo com lágrimas nos olhos e ironia na ponta da pena. Porque rir ainda é resistência. E chorar, quando necessário, é poético.
Muita luz para os que se foram.
Luz — mesmo cara — para os que ficaram.




