CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 03 de Agosto de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 03 de Agosto de 2025
Publicado em 04/08/2025 às 7:17

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O dia 03 de agosto de 2025 amanheceu como um maestro que perdeu a batuta, mas não perdeu o compasso do absurdo. Enquanto o sol se espreguiçava preguiçosamente no céu sergipano, as manchetes desfilavam como uma escola de samba desafinada em plena madrugada.

Comecemos com a ópera do caos: cerca de 200 torcedores do Santa Cruz foram conduzidos à delegacia em Propriá. A cena, digna de um filme de Tarantino com roteiro de Nelson Rodrigues, envolveu uniformes rubro-negros, ônibus cheios de testosterona, bandeiras agitadas como lençóis ao vento e, claro, drogas que surgiram no enredo como coadjuvantes teimosas. O futebol, que deveria ser poesia em movimento, virou manchete policial. E Propriá, coitada, transformou-se em encruzilhada entre o amor ao clube e o desatino. Que Deus abençoe os inocentes e que os culpados descubram que torcer não combina com entorpecer.

Mas nem tudo são travessões e cartões vermelhos. Em outro canto da pauta, a Orquestra Sinfônica de Sergipe abriu vagas para regente de coro e pianista. Salário acima de R$ 5 mil! Um milagre quase barroco num Brasil desafinado pela inflação. Enquanto alguns vendem a alma por um pix parcelado, eis que surgem vagas para quem rege sinfonias e digita acordes como quem acaricia a alma do tempo. Quem diria: no meio do samba rasgado da política e da tragédia urbana, uma pauta em dó maior para tocar nossos corações em sol sustenido de esperança.

Falando em política — e sempre se fala, mesmo que seja para não falar — o Datafolha trouxe Lula como maestro da preferência popular. Primeiro turno, segundo turno, terceiro sinal: o povo parece disposto a ouvir novamente a melodia do presidente. Uns vibram como torcida em final de campeonato; outros rangem os dentes como freios de ônibus sem revisão. A democracia, essa senhora de saia rodada e humor instável.

E para fechar com um acorde dissonante e surreal, direto do repertório do absurdo: uma neozelandesa foi presa por carregar uma criança de dois anos dentro de uma mala. Sim, uma mala. Não era uma metáfora. Era literal como a dor de dente no domingo. O motorista do ônibus, ao notar a mala mexendo mais que político em época de escândalo, desconfiou. E lá estava a pequena passageira clandestina, apertada entre roupas, talvez brinquedos, e o descaso humano. Um retrato cru da desumanização que nos espreita entre o cinismo e a pressa.

O Brasil, neste primeiro domingo de agosto, parece ter sido regido por um maestro bêbado que ora tropeça na pauta, ora acerta uma nota de esperança. A tragédia e a graça caminham de mãos dadas pelas vielas da realidade, como velhas conhecidas que se desentendem, mas não vivem separadas.

A crônica termina aqui, mas a vida continua compondo seus arranjos entre a esperança desafinada e a fé que insiste em dançar, mesmo sem música. Que cada um de nós encontre seu ritmo — longe das malas fechadas, das drogas escondidas e das promessas vazias.

Porque viver é compor, mesmo que a partitura da realidade nos pareça, muitas vezes, rabiscada por um poeta trágico em crise existencial.