CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de julho de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de julho de 2025
Publicado em 03/07/2025 às 6:47


Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


No calendário da humanidade, o 02 de julho de 2025 foi mais um capítulo do livro que mistura Gabriel García Márquez com Kafka, uma mistura de realismo trágico com surrealismo político, onde cada notícia é um parágrafo de um romance que nos deixa com os olhos arregalados e o coração em desalento.

Na cidade de Itabaiana, em pleno agreste sergipano, a realidade vestiu poncho colombiano. Agiotas, tão discretos quanto urubus num banquete de finados, foram flagrados pela polícia. Não eram personagens de novela das oito, mas sim empresários do medo, vendendo o terror com juros compostos e ameaças parceladas. E o desfecho? Um chá com o Ministério Público e um “até logo, muchachos”. A impunidade, essa senhora de olhos vendados e bolsos abertos, assina o contrato e oferece cafezinho.

Enquanto isso, em Aracaju, uma criança travou o fôlego com um soluço do destino, mas foi salva por um policial de folga. Um herói sem capa, armado apenas com o instinto e a técnica de desobstruir a vida. Na contramão da violência que sempre rouba manchetes, a PM nos devolve uma página de esperança. Um bebê respirando é a metáfora mais bonita que a vida escreveu nesse dia: mesmo quando tudo parece sufocar, ainda há pulmões querendo ar, mãos querendo ajudar.

Já na esfera do surreal jurídico, o INSS e a AGU decidiram que as vítimas de fraudes poderão fazer acordos para evitar o carnaval da judicialização. Mas cuidado com as entrelinhas, porque esse bloco só aceita foliões coletivos. Quem sofre sozinho, que dance com o demônio da burocracia no salão da lentidão. E assim seguimos: com um país onde a agilidade chega só para quem já vem em bando e com advogado a tiracolo. A individualidade continua naufragada no oceano de papeladas.

E por falar em naufrágio, na Indonésia, uma balsa decidiu que não era mais embarcação, mas sim submarino. Sessenta e cinco almas zarpando rumo ao invisível, quatro corpos encontrados, trinta desaparecidos e a esperança tentando remar contra a correnteza. O mar, esse velho contador de histórias, mais uma vez sussurra aos ventos que a vida é uma travessia incerta. Não há colete salva-vidas que proteja do descaso humano.

Mas o prêmio de crueldade institucional do dia vai para o governo dos Estados Unidos, que deportou por engano um imigrante panamenho para o inferno chamado El Salvador. Kilmar Abrego Garcia, nome de personagem de tragédia grega, foi jogado no labirinto de uma prisão onde os monstros vestem farda e batem com as mãos do Estado. Torturado por um erro que veio com carimbo oficial, retornou aos EUA não como cidadão, mas como prova viva de que os sistemas que deveriam proteger podem também esmagar. A democracia americana, com seu discurso polido e sua prática truncada, tropeçou nos próprios papéis.

E assim, entre agiotas turistas, heróis anônimos, vítimas de sistema e afogados sem nome, o 02 de julho nos lembra que o mundo é um palco onde o absurdo ensaia todos os dias. A plateia, atônita, aplaude por costume ou desespero. A vida continua — engasgada, afogada, torturada, mas, às vezes, salva.

E que bom que ainda há quem salve.