CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
“O dia em que o mar chorou, os Xokó gritaram, Roma ressuscitou e o mundo tropeçou nos próprios cifrões”
Num abril que mais parece um espelho estilhaçado de verdades incômodas, a quarta-feira amanheceu com o canto sufocado das tartarugas e o eco das vozes ancestrais dos Xokó. O céu azul, como se nada fosse, cobriu a terra com seu manto indiferente, enquanto a maré devolvia aos olhos humanos quase quinhentas cartas mortas escritas em casco. Não eram envelopes, eram vidas – tartarugas fêmeas, em plena missão de perpetuar a espécie, aprisionadas em redes de ganância, como quem dança e tropeça num laço invisível de lucro e desatenção.
Sergipe, o pequeno estado dos grandes contrastes, virou cenário de tragédia marítima: o útero das ondas virou cemitério silencioso. E as ondas, que antes ninavam esperanças, agora são parteiras do lamento.
Enquanto isso, na Ilha de São Pedro, os Xokó — filhos da terra, guardiões da memória — acenderam a fogueira do protesto. Querem de volta o Cras, mas não só o prédio, e sim a dignidade que morava lá dentro. Um prédio fechado por política pequena e vaidade grande, um centro de apoio transformado em símbolo de abandono. Reclamam seus direitos como quem resgata um colar enterrado no solo sagrado da ancestralidade.
Quem disse que os indígenas são do passado não entendeu que o futuro só é possível com raiz. E o grito deles não é só por eles — é por nós todos que estamos em perigo de sermos esquecidos por nós mesmos.
Lá em Brasília, Alexandre de Moraes puxou as rédeas da República e ordenou a prisão de Léo Índio, o primo que resolveu brincar de desaparecido na Argentina. Uma espécie de tango do escárnio, onde o passaporte é revogado, mas a pose continua internacional. Léo, o parente das sombras do bolsonarismo, quis fugir do enredo, mas foi puxado de volta ao palco da Justiça — e não vai ter bis.
Do outro lado do mundo, no coração de Viena, o solo tremeu — não por terremoto, mas por memória. 129 esqueletos romanos repousavam sob um campo de futebol, como se o Império tivesse deixado seus fantasmas em offside. A vala comum, mais apressada que ritual, revelou soldados jovens, homens entre 20 e 30 anos que talvez tenham sonhado com glórias e morreram esquecidos. A bola ainda não rola no novo gramado, mas os ossos rolam no pensamento: quantas guerras ainda cavaremos sob nossos próprios pés?
E como se não bastasse o peso da História e o clamor dos mares e das tribos, Trump lançou sua granada econômica global, uma espécie de “tarifaço” que fez o mercado asiático se ajoelhar de susto. O Nikkei 225 caiu como uma samambaia despencando da varanda do capitalismo, e os bancos tremularam como se tivessem visto o próprio saldo bancário no vermelho.
Em resposta, o Congresso brasileiro aprovou a chamada “Lei da Reciprocidade”, numa espécie de “olho por dólar, dente por tarifa”, numa dança diplomática que mistura axé com bolero, mas sem ensaio.
Ah, 02 de abril…
Tu foste um poema triste em cinco atos.
Um réquiem para tartarugas e guerreiros,
Um manifesto indígena,
Um drama judicial com parentes incógnitos,
E uma ópera global com notas que caem.
É preciso dizer:
Enquanto o mundo negocia impostos e esquece o sopro,
enquanto os mares devolvem filhas que só queriam parir,
enquanto os Xokó clamam por presença e o Império reaparece na lama,
nós seguimos vivendo como quem troca o sagrado por saldo, o necessário por nada.
Mas ainda há tempo.
De respirar como tartaruga livre.
De ouvir como Xokó em escuta com o chão.
De reaprender a enterrar nossos mortos com respeito.
De ser Roma sem império.
De ser Brasil com justiça e reciprocidade — mas, sobretudo, com humanidade.
Porque se o mar chorou, os ossos emergiram, e os indígenas clamaram,
a pergunta que resta é:
E nós? Vamos calar ou vamos cantar a mudança?




