CRÔNICA - MEIO AMBIENTE
Crônica: A Boca que Veio do Abismo
Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Foi num desses dias em que o mar, cansado de segredos, decidiu cuspir um mistério de quatro metros na areia sergipana. A Praia da Barra dos Coqueiros, acostumada a peixinhos curiosos e veranistas bronzeados, amanheceu boquiaberta — literalmente. Um tubarão megaboca, com nome de supervilão marinho e aparência de guardião dos abismos, resolveu fazer sua despedida final no nosso pedaço de litoral. Um visitante ilustre, raro como sinceridade em campanha eleitoral.
Megachasma pelagios. Parece nome de feitiço de Harry Potter, mas é, na verdade, uma das criaturas mais tímidas e discretas do fundo do oceano. Tão discreta que só foi vista, no mundo inteiro, 274 vezes. E, como toda celebridade, escolheu Aracaju como destino pós-morte. Poderia ter ido parar num aquário de Dubai, mas não — preferiu o calor de Sergipe, o acolhimento do Tamar e a curiosidade genuína de um povo que ainda se encanta com o extraordinário.
Chegou sem feridas, sem anzóis, sem drama. Apenas flutuando, em paz, como quem diz: “Agora é com vocês, cientistas e curiosos.” E lá foram os estudiosos da Ufal, da UFS, do Projeto Meros e do Tamar decifrar essa esfinge submarina. Uma esfinge com boca de túnel e alma de viajante solitário.
O megaboca não morde homens, não ameaça turistas nem invade redes sociais. Vive nas sombras oceânicas, caçando invisíveis crustáceos com sua bocarra que mais parece uma metáfora da fome do mundo. E, ironicamente, agora é ele quem nos alimenta — com conhecimento, curiosidade e a rara chance de ensinar que até o que vive longe dos olhos merece cuidado e respeito.
Fala-se até em exposição. Sim, querem colocá-lo no Oceanário de Aracaju. Uma espécie de embaixador das profundezas, lembrando aos visitantes que a biodiversidade não é só feita de golfinhos saltitantes e tartarugas simpáticas. Às vezes, ela veste escamas, nada no escuro e morre silenciosamente, sem causar tumulto. Mas deixa um legado.
Quem sabe esse megaboca não abra também outras bocas? A dos políticos, que só falam quando o microfone aparece. A dos estudantes, que agora têm um novo bicho-papão para estudar. A dos turistas, que verão em Aracaju um aquário de descobertas. E, quem diria, até a nossa, que vive reclamando da vida, mas dessa vez se abre em espanto e admiração.
O mar falou, e falou alto. Mostrou que ainda guarda cartas na manga d’água. E nós, terráqueos de vista curta, ganhamos mais uma chance de escutar.
E que venha a exposição. Porque não é todo dia que um abismo sorri para nós.




