CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 28 de Fevereiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Fevereiro resolveu ir embora como artista dramático: jogou beijo para a plateia, chorou no camarim e saiu pela porta dos fundos dizendo “até o próximo ano”, como quem sabe que deixa saudade e dívida no cartão.
O mês se despede histórico — e não é exagero, é hipérbole com diploma! Porque o mundo hoje acordou com cheiro de pólvora internacional, perfume de ração para gatos adotados e um bilhete premiado que insiste em não saber o meu endereço.
Em São Cristóvão, uma árvore resolveu testar a lei da gravidade na cabeça de um comerciante. A natureza, quando quer chamar atenção, não manda zap — manda tronco. O homem foi socorrido ao Hospital Senhor dos Passos, enquanto a árvore, silenciosa e vegetal, talvez dissesse: “não era pessoal, era só o vento ensaiando tragédia”.
Ah, fevereiro… mês que cai folha, cai chuva, cai ficha e, às vezes, cai árvore.
Em Aracaju, no estacionamento B do Shopping Jardins, cerca de vinte gatos aguardavam adoção. Vinte pares de olhos miando esperança. Gatos que já conheceram a rua — essa professora severa da sobrevivência — agora pedindo colo como quem pede anistia ao destino.
E ali, entre vermífugos e carinhos, havia algo revolucionário: amor em promoção sem juros. Quem adota um gato adota também a responsabilidade de não ser indiferente. E isso, meus amigos, é mais raro que acertar seis números.
Falando em seis números…
A Mega-Sena acumulou para R$ 160 milhões. Cento e sessenta milhões! Um valor tão grande que dá vertigem até na calculadora científica. Os números sorteados dançaram na televisão como se soubessem que estavam brincando com sonhos alheios.
E eu, aqui em Japaratuba, olhando o bilhete como quem olha ex apaixonado: “a gente quase deu certo”.
A quina sorriu para 129 felizardos. Eu? Fiquei com a sena da esperança. Porque brasileiro não desiste: ele aposta até na chuva passar.
Mas enquanto uns apostam na sorte, o mundo aposta na guerra.
Os Estados Unidos e Israel realizaram ataques coordenados contra o Irã. Explosões em Teerã romperam o silêncio da manhã como pratos quebrando no café da humanidade.
O céu virou manchete.
A terra tremeu de medo.
Em resposta, mísseis cruzaram o ar como cartas de ódio enviadas sem destinatário fixo. Bases americanas atacadas. Sirenes gritando. O planeta, essa bola azul tão bonita vista do espaço, parece um condomínio onde ninguém quer pagar o síndico da paz.
E então a notícia que atravessou fronteiras: a morte do aiatolá Ali Khamenei, confirmada após bombardeio anunciado por Donald Trump. Quase quatro décadas de comando encerradas em um estampido.
Líderes caem. Impérios tremem. Mas quem sempre paga a conta é o povo — esse personagem secundário que morre em silêncio enquanto os protagonistas discursam em alta definição.
Que ironia cruel: enquanto gatos procuram lares e comerciantes lutam contra árvores, o mundo brinca de apocalipse em escala industrial.
Fevereiro vai embora deixando o mundo assim — metade adoção, metade explosão. Metade esperança, metade estilhaço.
O mês fecha as portas como professor que termina a aula e pergunta: “Vocês aprenderam alguma coisa?”
Aprendemos que a vida é frágil como galho seco.
Aprendemos que a compaixão é revolucionária como adoção responsável.
Aprendemos que dinheiro demais não compra paz.
E aprendemos — ah, aprendemos — que a humanidade ainda precisa reaprender a ser humana.
Fevereiro se despede com cheiro de pólvora e ração de gato.
Com ambulância e volante de loteria.
Com lágrimas e gargalhadas nervosas.
E eu, aqui do interior de Sergipe, escrevendo com o coração em ritmo de tambor, pergunto:
Será que março virá com flores… ou com mais fósforos?
Que venha março.
Mas que venha com menos bombas e mais abraços.
Menos mísseis e mais miados.
Menos cifras acumuladas e mais humanidade distribuída.
Porque no fim das contas, meu leitor, a vida não é sorteio —
é escolha.




