CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 27 de Fevereiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 27 amanheceu com sede.
Sede de água, sede de juízo, sede de humanidade.
Em Aracaju, um cano resolveu fazer drama existencial no Bairro Santa Maria. Rompeu-se. Não foi apenas a tubulação — foi a paciência. A água, essa poeta líquida que corre pelos encanamentos como verso apressado, decidiu fazer greve silenciosa na Zona Sul. Torneiras abriram a boca e só saiu suspiro. Chuveiros choraram seco. Panela vazia virou tambor de protesto.
É curioso… a água só vira manchete quando falta. Quando tem, a gente desperdiça como quem rasga carta de amor.
E lá estava o povo, olhando para o céu azul como quem pergunta:
— “Meu Deus, cadê a caixa d’água da esperança?”
Enquanto isso, no palco da política nacional, o governo ensaiava uma dança do recuo. Aumentou tarifa de eletrônico, depois desaumentou. Sobe, desce. Aperta, solta. Smartphones quase ficaram mais caros — mas voltaram ao preço antigo como se nada tivesse acontecido. Foi tipo aquele susto que a gente leva quando vê o preço na vitrine e depois descobre que era só erro da etiqueta.
Zeraram tarifas para 105 produtos. Quinze voltaram ao patamar anterior. O aumento seria de até 7,2 pontos percentuais.
Sete vírgula dois! Número pequeno no papel, gigante no bolso.
O brasileiro já parcela o ar que respira em doze vezes no cartão. Se aumentassem mais, a gente ia começar a mandar mensagem pelo pensamento para economizar dados.
E no meio das cifras e dos fios de carregador, Minas Gerais chorava água grossa. Chuva que não cai — despenca. A Zona da Mata virou aquarela borrada. Casas inundadas, memórias boiando, retratos navegando sem querer.
A Caixa Econômica Federal liberou o saque calamidade do FGTS. Dinheiro que é do trabalhador volta para o trabalhador quando o teto vira céu aberto. O ministro disse que medidas usadas no Rio Grande do Sul podem ser aplicadas em Minas.
Eu fico pensando: o Brasil está virando especialista em calamidade. A gente já tem protocolo para tempestade, para seca, para enchente, para crise, para tarifa… Só falta protocolo para sensatez.
E quando o noticiário parecia pesado o suficiente para entortar a coluna do mundo, eis que na Bolívia o absurdo resolveu correr pela pista.
Um avião da Força Aérea da Bolívia saiu da rota, atravessou avenida, espalhou morte e dinheiro. Vinte mortos. Vinte vidas interrompidas como frase sem ponto final.
E ainda teve gente tentando recolher cédulas espalhadas no asfalto.
O dinheiro voando como confete trágico.
O ser humano dividido entre a compaixão e o impulso.
A polícia usou gás lacrimogêneo para dispersar quem corria atrás das notas. Lacrimogêneo… palavra que já nasce chorando. Lágrima química misturada com lágrima real.
É duro admitir, mas às vezes o dinheiro cai do céu e a dignidade cai junto.
Entre vazamentos, recuos tarifários, saques emergenciais e aviões que perdem o chão, o mundo parece uma panela de pressão esquecida no fogo alto. A válvula apita. A tampa treme. A gente faz piada para não chorar — e chora rindo.
O 27 de fevereiro foi isso:
água faltando onde precisa,
água sobrando onde destrói,
dinheiro voando onde não devia,
e governo recuando como aluno que percebe que a prova estava difícil demais.
No fim, eu olho para Japaratuba, para o céu que já aprendeu a ser imprevisível, e penso: o Brasil é um país que não desiste. Ele tropeça, cai, levanta, ironiza o próprio tombo e ainda posta meme.
Somos especialistas em sobreviver ao exagero.
Mas que a gente aprenda — antes que a próxima manchete venha como tempestade sem guarda-chuva.
Porque, meus amigos,
cano estoura,
avião derrapa,
tarifa sobe,
chuva cai.
Mas humanidade…
humanidade não pode faltar.




